
O governo Lula 3 sofreu uma das derrotas mais simbólicas no Congresso ao tentar aprovar o aumento do IOF. O placar revelou uma base de apoio extremamente frágil: apenas 98 dos 513 deputados votaram alinhados ao Palácio do Planalto. A proposta foi rechaçada por 383 votos e sequer contou com apoio de partidos que integram o próprio governo, como PDT, União Brasil, PP e Republicanos — todos com ministérios importantes.
A pergunta que surge é: esses partidos estão errados em rejeitar a proposta de um governo do qual participam? O compromisso político deveria ser cego, ignorando o eleitorado, as bases regionais e o impacto da medida sobre a população? Eis o dilema. O que se vê, na prática, é uma ruptura entre a ocupação de cargos e o apoio real nas votações. Os partidos têm usufruído do bônus de estarem no governo, mas rejeitado o ônus de votar medidas impopulares como aumento de tributos.
Nem o PDT, atolado até o último fio de cabelo nas denúncias envolvendo o consórcio criminoso do INSS, cedeu. Dos 17 parlamentares pedetistas, 16 votaram contra o aumento do IOF. O mesmo aconteceu com União Brasil, PP e Republicanos: zero votos a favor da medida. Já no PSD, apenas um deputado, Hugo Leal (RJ), apoiou a proposta. O MDB, partido tradicionalmente governista, deu apenas dois votos. E o PSB do vice-presidente Geraldo Alckmin, apenas três.
O caso mais emblemático foi o próprio PT. A legenda do presidente Lula não entregou votação unânime: Rui Falcão (SP) votou contra e depois disse ter cometido um erro. Benedita da Silva (RJ) não votou. Apenas os partidos menores da esquerda — Rede (1 deputado), PSOL (13) e PCdoB (8) — foram unânimes a favor do governo.
A votação evidencia que o apoio ao governo está limitado à retórica. Muitos deputados da base preferiram não se comprometer, como mostra a abstenção de Tabata Amaral (PSB/SP) e de 18 deputados do PSD. Com isso, fica claro que o Planalto não enfrenta apenas dificuldades de articulação, mas uma crise de legitimidade e confiança. E mais: a debandada generalizada pode não ser um episódio isolado, mas uma tendência.
Se o governo continuar apostando no aumento de impostos como única alternativa para cobrir rombos fiscais, encontrará cada vez mais resistência — inclusive entre aliados. O sinal do Congresso foi claro: a conta não será paga pelos parlamentares. Nem mesmo pelos da base.
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