
O silêncio de Themístocles Filho, atual vice-governador do Piauí, fala mais alto do que qualquer discurso. Enquanto ele assiste calado ao movimento de peças no tabuleiro petista, o PT trabalha abertamente para riscar seu nome da chapa de 2026. Não se discute mais se haverá um novo vice na aliança de Rafael Fonteles, mas sim quem ocupará a vaga. E a resposta pode selar o tom - e o rumo - da próxima eleição estadual.
Com o campo de disputa já delimitado, dois nomes permanecem no jogo: Washington Bandeira, secretário da Educação, e Chico Lucas, titular da Segurança Pública. Ambos homens de confiança de Fonteles. Ambos com perfis técnicos. Ambos sob o escrutínio da opinião pública. Mas qual deles tem mais lastro para compor uma chapa de reeleição num cenário cada vez mais polarizado e com cobranças crescentes por resultados?
Chico Lucas, apesar da imagem de gestor preparado e articulador político, carrega um fardo pesado: o desempenho da Segurança Pública. O "Pacto pela Ordem" ainda não convenceu a população, sobretudo nas periferias, onde facções continuam impondo toque de recolher, julgamentos paralelos e execuções à luz do dia. Em tempos de medo, não há marketing que salve. O eleitor quer ação, e não discursos.
Washington Bandeira, por sua vez, vem surfando em águas menos turbulentas. A Educação no Piauí ainda está longe do ideal, mas, ao menos, funciona. Apesar de críticas pontuais, Bandeira conseguiu imprimir capilaridade, executar programas e manter o setor vivo em meio à crise fiscal. Ganha pontos também pela discrição, pela habilidade de dialogar com o campo político e pela proximidade com Wellington Dias, o nome que, até hoje, dita os bastidores do poder no Estado.
Nos bastidores, o favoritismo de Bandeira é claro. Não apenas por entregar um desempenho "minimamente aceitável", mas porque agrega sem ameaçar. Não tenta projetar mais sombra que o governador, e isso conta - especialmente num grupo em que fidelidade e discrição valem tanto quanto votos.
Themístocles, então, foi rifado? Sim, e a comunicação oficial já trabalha com essa realidade. Seu nome não circula mais nas rodas de articulação, e nem mesmo o seu tradicional cacife político tem força diante de uma estratégia que visa consolidar o núcleo duro petista — com nomes mais dóceis à centralização do poder.
Mas desprezar Themístocles pode ser um erro estratégico dos grandes. Ele é o que se costuma chamar de uma "raposa velha" da política - e mais que isso, uma raposa felpuda, daquelas que surpreendem. Tem história, tem musculatura eleitoral, tem grupo, tem voto. E tem mais: tem mandato. Não apenas o de vice-governador, mas deputado federal eleito e prefeito de uma das maiores cidades do Norte do Estado. Ignorar seu peso político pode significar um tiro no pé e, em um cenário mais drástico, até mesmo a perda do Palácio de Karnak. Neste momento, a vaidade de uma "chapa pura", de sangue exclusivamente petista, pode resultar em uma hemorragia de votos.
Enquanto isso, cresce também o temor de uma vice-governadoria usada apenas como trampolim eleitoral ou moeda de barganha para 2030. O eleitor precisa mais do que composição de palanque: quer segurança, saúde, educação e empregos. E, neste ponto, o perfil do futuro vice pode fazer toda a diferença.
Resta saber quem pesa mais: um secretário da Educação que entrega o básico com estabilidade, um secretário da Segurança que ainda não venceu o medo nas ruas - ou uma raposa política que, mesmo em silêncio, nunca sai do jogo?
A decisão, ao que tudo indica, será de Rafael Fonteles. Mas o eleitor, este sim, terá a palavra final - e ela pode surpreender mais do que os próprios bastidores do PT esperam.
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