
A recém-criada Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS nem começou a funcionar e já virou um campo minado. Mais do que apurar irregularidades, desvios e esquemas que atingem aposentados, pensionistas e o erário público, a CPMI escancara a guerra surda por espaço, influência e narrativa em ano pré-eleitoral.
Menos de 24 horas após a leitura formal do requerimento pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União/AP), partidos começaram a travar suas batalhas internas e externas para garantir assentos - e, principalmente, a presidência e a relatoria do colegiado.
PP e PSD jogam duplo
O PP, do senador Ciro Nogueira, surpreendeu ao indicar dois nomes que estão longe de serem mansos com o Planalto: Esperidião Amin (SC) como titular e Luiz Carlos Heinze (RS) como suplente. Ambos são senadores experientes, independentes e já fizeram duras críticas à gestão Lula - especialmente nas áreas de Previdência e Orçamento.
Ciro, que articula nos bastidores a ocupação de espaços estratégicos, foi direto ao comentar as escolhas:
"Se querem fazer de conta que essa CPMI é pra valer, então não dá pra recheá-la só com governistas. Quem quer proteger o aposentado precisa primeiro confrontar quem promove o caos na Previdência".
Já o PSD indicou, na Câmara, o deputado Sidney Leite (AM), autor de um projeto que proíbe descontos automáticos nas aposentadorias - uma das práticas sob investigação. Um gesto claro de que, mesmo no arco de apoio ao governo, o partido está disposto a bater de frente com práticas nocivas.
PL abre mão da relatoria, mas não do controle
O PL, maior partido da oposição, decidiu sair da disputa pela relatoria da CPMI - mas isso não significa recuo. Ao contrário, a legenda aposta em número: garantiu três titulares e três suplentes, cedendo apenas uma suplência ao Partido Novo. Ao todo, 11 parlamentares do PL se inscreveram para participar, o que deve provocar disputas internas ferrenhas.
Entre os nomes mais cotados estão os de Bia Kicis (DF), Coronel Fernanda (MT), Daniela Reinehr (SC), Zé Trovão (SP), Coronel Chrisóstomo (AM) e André Fernandes (CE) - todos com discursos duros contra o governo e foco declarado na "indústria do consignado", uma das faces da crise do INSS.
A presidente é do Planalto - mas e a relatoria?
A presidência da CPMI ficará com o Senado. O nome mais provável, segundo fontes no Congresso, é o de Omar Aziz (PSD/AM), apadrinhado de Alcolumbre e próximo ao Planalto. Aziz é visto como "equilibrado", mas seus vínculos com o governo despertam desconfiança na oposição.
A relatoria, que ficará com a Câmara, segue indefinida. Como o PL abriu mão, abre-se espaço para o MDB, Republicanos ou até mesmo um nome “técnico”, mais palatável a todos os lados - mas tudo dependerá das costuras de bastidor.
CPMI ou palco eleitoral?
Na prática, a CPMI do INSS já nasceu contaminada pela política. De um lado, um governo acuado por escândalos, ineficiência e rombos bilionários. Do outro, uma oposição que fareja sangue e quer capitalizar cada depoimento como munição eleitoral.
Mas, no meio disso tudo, está o drama real dos aposentados vítimas de fraudes, descontos indevidos, e filas intermináveis. Resta saber se a comissão servirá para resolver ou apenas explorar. Para investigar ou encobrir. Para punir culpados ou garantir cargos.
Se depender das primeiras movimentações, a CPMI promete mais fumaça que fogo - a não ser que o Congresso, pressionado pela opinião pública, resolva quebrar o script.
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