
Na política piauiense, onde tudo sempre acontece nos bastidores, Rafael Fonteles tem se destacado por um estilo direto que choca até mesmo os veteranos de plenário. Sem rodeios, o governador já soltou o verbo: quer uma chapa 100% PT para 2026. Nada de composições "heterogêneas", muito menos reedição de velhas dobradinhas com o MDB. A ordem no Palácio de Karnak é "chapa pura e de preferência puro sangue". E isso está mexendo com os alicerces de uma aliança que parecia sólida.
Se Wellington Dias era conhecido por suas manobras de última hora — como a famosa rasteira no então PMDB ao emplacar Regina Sousa como vice —, Fonteles prefere dizer logo o que quer. Talvez seja uma virtude. Talvez seja um risco.
O índio perdeu o cocar?
Wellington Dias, que já foi senhor absoluto da política piauiense, hoje parece ter sido escanteado dentro do próprio clã. O homem que alçou Rafael ao poder pode acabar indicando apenas o suplente de um candidato ao Senado que corre por fora: Júlio César Lima. Um prêmio de consolação para quem já foi governador, senador e hoje comanda um ministério em Brasília?
E os bastidores sussurram mais: Dias teria tentado emplacar o próprio filho na vice de Fonteles. Sonhava com uma dobradinha familiar-partidária. Mas esbarrou em algo raro no PT do Piauí: resistência interna. Rafael, que quer fazer do governo uma vitrine de "modernidade e continuidade", parece não querer sombra na sua tenda.
Themístocles Filho: o vice de escanteio?
No epicentro da crise silenciosa está o MDB. E mais precisamente, o vice-governador Themístocles Filho. Fiel escudeiro de Fonteles, homem de palavra, mas também de ambição política. Ao ser preterido na nova formação, o MDB pode engolir a seco — ou não. Themístocles vai aceitar calado? Vai voltar à Assembleia? Disputar suplência? Virar adereço em uma estrutura de poder cada vez mais estreita?
Se não for bem acomodado, o MDB pode rever seu papel na aliança. E aí, o “chapa pura” pode virar “chapa dura”. Porque sem o MDB, o PT terá dificuldades. E Rafael sabe disso. Uma base sólida se forma com concessões, não com imposições.
Entre a ousadia e o isolamento
A ousadia de Fonteles é inegável. Mas a política não perdoa quem ignora a aritmética eleitoral. Foi o que aconteceu com Jair Bolsonaro em 2022, ao montar uma chapa hermética, de militares para militares, sem oxigênio político. O resultado foi uma derrota amarga — e talvez desnecessária.
O PT piauiense deve tomar cuidado para não cair na mesma armadilha. A fidelidade de aliados tem um limite: o da sobrevivência política. E Rafael Fonteles, que até agora navegou com bons ventos, pode enfrentar tempestades se não souber costurar alianças além do seu espelho.
No final das contas, o novo cacique pode até tentar se impor. Mas sem a tribo reunida, até os mais poderosos governadores viram reféns da própria teimosia.
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