
Olá de novo, escola
Ano que vem vai fazer 20 anos que terminei o colégio.Estou preparando meu sexto livro “As redações do colégio”, um tesouro que abro ao mundo para mostrar que já possuía uma veia artística e uma grande vontade de escrever aliada à criatividade.
Dia desses lembrei de uma peça que fui ainda na época do colégio.Pena que não lembro o nome.Era sobre um homem que voltava para seu colégio, em uma sala de aula vazia, e enfrentava suas memórias,conflitos e fantasmas da época escolar.Uma pena mesmo que não lembro.
Mas todo livro que termino vou entregar nos colégios que estudei e me emociono.Em um, revejo o parquinho do recreio, a escada que conversávamos, o ginásio da atividade física,os risos que as paredes absorviam, o burburinho do final de dia, as gincanas, a sala da 6 série, as primeiras paixonites.
No outro colégio revejo a escada do Cristo, os grandes corredores, as conversas cristalizadas na memória, os choros de final de ano pelo boletim.
Dia desses fui entregar meu currículo de mestra no primeiro colégio que estudei e avistei o grande corredor que aos 5 anos eu entrava correndo ofegante para a sala detrás da quadra.
Paro as vezes em qual dimensão do tempo e espaço isso ficou, em qual estação nesses vinte anos posso descer e voltar, aproveitar o que eu poderia ter aproveitado mais.Reembolsar uma saudade cara, valiosa, que não tem nota fiscal.
Tenho vontade, nesse texto de expressar gratidão e desculpas.
Gratidão pela paciência, persistência, carinho com meu desenvolvimento.Hoje, mestra e escritora reconhecida, isso não teria acontecido sem as aulinhas divertidas de redação.
E desculpas.Desculpas por comparar colégios, por a culpa em um ou outro, quando na verdade eu tinha que culpar meus pensamentos e sentimentos.Minha crise de identidade.Minha falta de aceitação.Vocês fizeram o seu melhor para disciplinar, ensinar, transmitir valores.Mas o transtorno mental e as dores da alma não escolhem classe, sexo, credo e nem mesmo colégio.Na adolescência então...
Muitos demonizam as redes sociais, mas esquecem que os movimentos de saúde mental são mais difundidos hoje.Quando é que falávamos de janeiro branco?De impulsos, compulsões, obsessões?De sentido na vida, valor e propósito?De bullying, suicídio, de terapia nas empresas?
O mundo mudou.
Me considero privilegiada de ter conhecido a vida sem redes sociais.Imagino o drama de ensinar essa geração tecnológica, que mal sabem que educação de verdade se faz com papel, lápis, tinta, suor, propósito,recreio saudável,joelho ralado, sentido, erros e acertos e muita, muita compaixão por si mesmo.
Queria ter aprendido mais cedo a arte da aceitação e amor próprio incondicionais.
Meus professores na atualidade são outros.
Há tarefas de casa com prazos misteriosos e indeterminados.
Há outros probleminhas que não os de matemática, mais difíceis de resolver.
Há lições difíceis de serem aceitas.
Nem consigo acreditar que matemática e física eram meus maiores vilões.
Hoje há boletos, trânsito em meio ao sol escaldante, dias que só quero ficar na rede.
Comportamentos muito mais provocantes que o bullying malicioso da juventude.
A campa do recreio seja música clássica ou estridente não é o que me acorda mais dos intervalos da vida, mas a consciência dos compromissos, os cabelos brancos e primeiras ruguinhas do relógio passando.
Até mais colégio.Te vejo por aí matérias queridas, ainda lembradas no meu gosto por ler, aprender, pelo reencontro com os amigos,depois das férias, pelo gosto em revelar fotos sem a pressa de postar mas viver intensamente o gosto de ser apenas estudante ávida pelo futuro.
Não foi na era digital, mas foi melhor ainda : foi simplesmente real.
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