
Fiz de tudo na minha vida para não assistir ao clássico “Laranja Mecânica”, do diretor Stanley Kubrick. Não teve jeito. Uma professora passou uma série de questões sobre o filme e, então, a contragosto, tive de assisti-lo.
Desde pequena, a cena do personagem Alex com os olhos presos (o que eu mais tarde chamaria de condicionamento) me assustava. Mas, assim como quando decidi assistir “O exorcista”, uma hora temos que enfrentar nossos medos e preparar nossa mente e espírito crítico.
O filme é um prato cheio para quem quer analisá-lo do ponto de vista da Psicologia. Em uma Londres, num futuro incerto e surreal (mas com uma pegada dos anos 70), Alex e seus drugues cometem todo tipo de violência, em um meio permeado por drogas e sexo. Traído por seus colegas, o jovem, saído da adolescência, é levado para uma prisão que mais parece um reformatório. Lá, passa pelo experimento denominado Ludovico.
Vale lembrar que o autor, Anthony Burgess, que estudou Psicologia para escrever o livro, fez uma forte crítica à Psicologia mecanicista de Watson. O que mais eu poderia falar do filme? Que foi censurado pela ditadura militar brasileira em 1971? Enfim... Haja estômago!
Lembrei-me da aula de ética, na qual falávamos das teorias éticas que se organizavam sobre o conceito de bom. No hedonismo, o bom era considerado como prazer. Este pode ser um sentimento ou estado afetivo ou sensação agradável resultante de certos estímulos. Dizem as teses fundamentais do hedonismo que somente o prazer é intrinsecamente bom e que a bondade de um ato depende do prazer que contém.
Indago: será que realmente todo prazer é intrinsecamente bom? Claro que não! O prazer pode resultar em uma boa sensação, mas a pedofilia e o sadismo, por exemplo, não são bons, e a própria ética, sendo o ramo da filosofia que estuda a moral, considera isso inapropriado.
Também é uma crítica à Inglaterra, que se diz segura e confiável, e a vários setores da sociedade, como a família, a Igreja, o Estado e o sistema educacional. A família é apática, indiferente e ausente, frente a um homem sem projeto de vida.
No que se refere à Igreja, o Cristianismo é fortemente criticado, seja na polêmica cena em que Alex se imagina açoitando Cristo, seja pelas referências ao posicionamento acerca da masturbação; além da cobra de estimação de Alex, que nos remete ao pecado original, e da passividade da Igreja diante das atrocidades da Segunda Guerra Mundial, na cena em que Alex é condicionado a ver o que os nazistas faziam no campo de concentração (uma crítica aos experimentos humanos forçados que ali ocorriam). Por fim, a crítica à mídia é vista nos jornais que se vendem, numa forma de exploração do poder que ela possui.
No final de tudo isso, Hollywood parece dizer que não quer uma adolescência com violência e sexo e que a sociedade é um espelho da violência de Alex. No mais, sobre Kubrick, De olhos bem fechados me causou mal-estar; O iluminado, não tive coragem de assistir; 2001, uma odisseia no espaço não me interessou muito – não sou lá uma grande fã de ficção científica; Lolita ainda verei, com o espírito desarmado. Afinal de contas, por ser um humano, o estudante de psicologia também pode escolher.
Mín. 23° Máx. 32°