
A América Latina está desabermelhando. Literalmente. Um a um, governos e projetos políticos identificados com a esquerda vêm perdendo espaço no continente. E, o mais importante: nas urnas. Nada de quartel, nada de ruptura institucional. É no voto mesmo.
E uma onda políticamente azul parece começar a cobrir todo o Cone Sul.
Os exemplos mais recentes vieram da Colômbia e agora do Peru. Os peruanos escolheram a conservadora Keiko Fujimori como presidente da República, derrotando por margem apertada o candidato de esquerda Roberto Sánchez.
A diferença foi de pouco mais de 43 mil votos em um universo superior a 18 milhões de eleitores. Apertado? Muito. Mas suficiente para tornar a vitória matematicamente irreversível.
O resultado tem peso político que vai muito além das fronteiras peruanas.
Primeiro, representa uma guinada à direita em um país que vive uma década de profunda instabilidade política. O Peru teve presidentes presos, destituídos, renúncias e sucessivas crises institucionais.
Nesse cenário de desgaste, parte significativa do eleitorado optou por uma candidatura que prometeu estabilidade econômica, segurança jurídica e maior previsibilidade institucional.
A vitória também simboliza uma rejeição a setores da esquerda ligados ao ex-presidente Pedro Castillo, preso após tentar fechar o Congresso e governar por decreto em 2022.
Nos últimos anos, a chamada "onda rosa" da América Latina começou a encontrar dificuldades.
Governos identificados com a esquerda enfrentam hoje problemas econômicos, inflação, aumento da insegurança, desgaste político e escândalos de corrupção em diversos países.
Isso não significa o desaparecimento da esquerda no continente. Longe disso.
Mas demonstra que uma parcela crescente do eleitorado latino-americano está buscando alternativas e experimentando novas opções políticas.
Influencia. E muito.
A política latino-americana sempre produz reflexos simbólicos no Brasil.
Vitórias da direita em países vizinhos costumam animar partidos conservadores brasileiros, fortalecendo discursos de mudança e renovação política.
Ao mesmo tempo, derrotas de governos de esquerda no exterior acabam sendo usadas por adversários como argumento durante campanhas eleitorais.
É claro que o eleitor brasileiro decide sua vida olhando principalmente para a própria realidade: emprego, renda, inflação, segurança e qualidade dos serviços públicos.
Mas ninguém pode ignorar o impacto político e psicológico que uma sequência de vitórias conservadoras provoca na região.
No plano internacional, partidos e movimentos conservadores da América Latina saem fortalecidos.
Lideranças de direita passam a enxergar um ambiente mais favorável para suas pautas econômicas e ideológicas.
Já os governos de esquerda da região recebem um alerta importante: o eleitorado está mais exigente e menos disposto a conceder cheques em branco.
Nem de longe.
Keiko Fujimori assume um país profundamente dividido.
Seu adversário já sinalizou que não reconhece o resultado eleitoral, aumentando a tensão política.
Além disso, o Peru carrega uma década de instabilidade institucional, com presidentes derrubados, presos ou forçados a renunciar.
A nova presidente terá o desafio de reconstruir pontes, recuperar a confiança das instituições e tentar devolver alguma normalidade à política peruana.
Se existe uma mensagem clara saindo do Peru, ela é simples: o eleitor latino-americano continua disposto a mudar de rumo quando considera necessário.
Hoje foi a vez do Peru.
E a pergunta que começa a ecoar pelo continente é inevitável: estamos diante de uma mudança pontual ou de uma nova maré política na América Latina? E quando um país desabermelha, ele se pinta de azul?
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