
Que nossas Eucaristias realizem, de fato, o que pretendem: a partilha da Vida, o sentar-se à mesa com o irmão, na Casa do Pai.
Vatican News - Josenildo Melo*
Se o banquete da vida se tornou privilégio de poucos, devemos refletir e revisar a disposição que nos leva à celebração semanal da Vida, ou seja, à celebração em que é realizada a partilha do Pão. A falha não é do Criador.
Em Isaías — primeira leitura deste domingo — Deus subverte o status quo, convidando os pobres a saírem da penúria e a vivenciarem a partilha da criação. Esse convite é para a libertação: a libertação da dependência dos produtores de alimentos, daqueles que se assenhorearam dos bens da criação e exercem poder sobre o direito das pessoas de se alimentarem como Deus, nosso Pai, pensou, oferecendo-nos uma natureza dadivosa.
Deus não quis irmãos explorando irmãos e matando-os de fome, mas criou tudo para todos.
No Evangelho, Jesus faz exatamente a vontade do Pai. Não deixa ninguém passar fome. Ao contrário, não é apenas pródigo com a comida material, mas, no futuro, far-se-á nosso alimento, quando nos der, por meio do pão e do vinho, seu Corpo e seu Sangue como alimento eterno.
Mas vejamos o contexto em que se realiza o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes. São Mateus nos fala, inicialmente, do banquete de Herodes, banquete em que, apesar de se consumirem alimentos, não se celebra a vida, mas a morte. Seus comensais estão ali com o intuito de exercer poder, de pressionar, de defender interesses. Não pensam no outro, mas em si mesmos, em se manterem, mesmo à custa do sofrimento e da morte do inocente. O grande inocente morto nesse banquete herodiano foi João Batista. Sua culpa foi não aceitar a vida devassa do potentado.
Já o banquete que Jesus proporciona ao povo se dá a céu aberto e é realizado com grande compaixão, após falar do carinho do Pai e curar os doentes que ali estavam. É o banquete da Vida, que sacia plenamente aqueles que dele participam. As desigualdades foram suprimidas; todos foram saciados, curados e amados.
A solução apresentada por Jesus não foi um milagre econômico nem religioso, mas a partilha dos bens da Criação.
Em outra passagem do Evangelho, Jesus diz que aos pobres é revelado o Reino de Deus, e eles entendem a mensagem do Reino. E é verdade! No tocante à partilha dos bens, ninguém entendeu melhor do que eles. Dentro de sua pobreza e até de sua miséria, o pobre sabe dividir o que possui.
Nossas celebrações eucarísticas deveriam deixar de ser mero ritual e passar a ser aquilo a que se propõem e que é querido por Jesus, isto é, partilha da Vida. Partilha do Pão da Vida, que é Jesus, e partilha do pão que sustenta a vida material, partilha essa que indica a autenticidade de nossa celebração eucarística.
Ainda considerando as palavras de Jesus — "quem fizer algo ao menor dos meus irmãos, a mim estará fazendo" —, podemos ter a consciência de que, ao partilharmos com o pobre, mesmo sendo uma pessoa desconhecida e que jamais conheceremos, vale a palavra de Jesus. Não importa se o gesto de partilhar poderá nos tornar mais pobres; importa agradar a Jesus e viver o espírito da segunda leitura: nada nos poderá separar do amor de Deus, seja o bem-estar, a fome, a nudez ou o conforto.
Que nossas Eucaristias realizem, de fato, o que pretendem: a partilha da Vida, o sentar-se à mesa com o irmão, na Casa do Pai. Como consequência, não haverá mais carentes, seja material, afetiva ou espiritualmente. E dirão sobre nós: "Vejam como se amam!". E, consequentemente, o Senhor aumentará o número de nossos companheiros.
Josenildo Nascimento Melo é *Vaticanista - especialista em coberturas do Vaticano/Santa Sé/Igreja Católica
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