
Quem olha os números do Banco Digimais leva um susto. E não é para menos.
Em apenas oito anos, o volume de CDBs emitidos pela instituição saiu de R$ 694 milhões para impressionantes R$ 8,5 bilhões. Estamos falando de um crescimento de 1.130%.
Mas a pergunta que agora a Polícia Federal tenta responder é simples: esse crescimento era sustentável ou estava apoiado em uma estrutura financeira problemática?
Vamos por partes.
Primeiro, é importante entender o que é um CDB. Quando uma pessoa compra um Certificado de Depósito Bancário, na prática está emprestando dinheiro para o banco. Em troca, recebe uma remuneração, geralmente atrelada ao CDI.
Quanto maior o percentual do CDI oferecido, mais atrativo o investimento.
E foi exatamente aí que o Digimais chamou atenção.
Enquanto boa parte dos bancos oferecia remunerações dentro dos padrões do mercado, o Digimais passou a oferecer taxas muito superiores. Segundo a investigação, alguns títulos chegaram a pagar até 140% do CDI.
Qualquer semelhança será mera coincidência?
Traduzindo para o português claro: era como se o banco colocasse uma placa gigante dizendo aos investidores:
- Venham para cá porque aqui o rendimento é maior.
E funcionou.
Bilhões de reais começaram a entrar na instituição. O problema é que, segundo a Polícia Federal, o crescimento da captação não estaria acompanhado da mesma capacidade financeira do banco.
Ou seja: o dinheiro entrava em ritmo acelerado, mas a estrutura patrimonial da instituição não crescia na mesma proporção.
É justamente nesse ponto que surge a comparação com o Banco Master. Entendeu?
Segundo os investigadores, tanto o Digimais quanto o Master teriam utilizado uma estratégia parecida: captar grandes volumes de recursos oferecendo remunerações muito acima da média do mercado, apoiados na confiança dos investidores de que o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) protegeria suas aplicações.
O FGC garante até R$ 250 mil por CPF e por instituição financeira.
Na prática, muitos investidores pensam assim:
"Se o banco quebrar, estou protegido."
Não está não. Ou melhor só até o teto de R$ 250 mil.
A Polícia Federal afirma que essa percepção de segurança teria sido utilizada como ferramenta para atrair mais recursos. A investigação sustenta que os administradores teriam transferido o risco da operação para o próprio sistema de proteção financeira.
Em outras palavras: captavam bilhões hoje contando que, em uma eventual crise, o sistema de garantia absorveria o prejuízo.
Outro detalhe que chama atenção é a suspeita de que os balanços financeiros não refletiriam a realidade da instituição. A PF investiga se ativos foram superavaliados para criar uma aparência de patrimônio maior do que o efetivamente existente.
É o mesmo tipo de suspeita que aparece nas investigações envolvendo o Banco Master.
Por isso os investigadores falam em práticas "análogas". Não significa que os dois casos sejam idênticos.
Mas significa que os mecanismos investigados apresentam semelhanças importantes.
Outro ponto relevante é que bancos e corretoras bastante conhecidas distribuíam os produtos do Digimais.
Entre as instituições citadas aparecem:
Isso não significa que essas instituições sejam investigadas ou suspeitas de irregularidades.
Elas atuavam como distribuidoras dos produtos financeiros oferecidos pelo banco.
E os clientes? Perderam dinheiro?
Até o momento, não.
Não existe notícia de prejuízo direto aos correntistas ou investidores. Também não houve liquidação da instituição nem intervenção do Banco Central.
O foco da investigação está na atuação dos administradores do banco e na forma como os números teriam sido apresentados aos órgãos de fiscalização. Por enquanto, a Justiça autorizou buscas, quebra de sigilos e bloqueio de até R$ 670 milhões em bens dos investigados.
O Banco Digimais nega irregularidades e afirma que está colaborando integralmente com as autoridades.
O que torna o caso tão relevante é justamente a semelhança apontada pela Polícia Federal com o escândalo do Banco Master.
A grande dúvida agora é saber se estamos diante de mais um caso isolado ou se parte do sistema financeiro passou a conviver com modelos de negócios sustentados por riscos muito maiores do que aparentavam nos balanços.
E essa resposta pode ter impacto muito além do Digimais.
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