
A indústria automotiva brasileira está assistindo ao fim de uma era e ao início de outra. A Jaguar Land Rover, que chegou ao Brasil cercada de expectativas e investimentos bilionários, decidiu encerrar a produção nacional dos modelos Discovery Sport e Range Rover Evoque na fábrica de Itatiaia, no Sul do Rio de Janeiro.
Quando a planta foi inaugurada, em 2016, o projeto era apresentado como símbolo da confiança da marca britânica no mercado brasileiro. Era a primeira fábrica da Jaguar Land Rover fora do Reino Unido e a única em toda a América Latina. O investimento ultrapassou R$ 1 bilhão e prometia transformar a região em um polo da indústria premium.
Mas o sonho não durou tanto quanto se imaginava.
A fábrica jamais conseguiu operar perto de sua capacidade máxima. Os veículos produzidos localmente tiveram vendas modestas e a estratégia global da empresa mudou radicalmente. Hoje, a Jaguar Land Rover prefere concentrar esforços em veículos de luxo de maior valor agregado e abastecer mercados como o brasileiro por meio de importações.
E é justamente nesse momento que os chineses entram em cena.
A Omoda & Jaecoo, marcas globais do Grupo Chery, aparecem como favoritas para assumir a estrutura industrial de Itatiaia. A intenção é transformar a planta em uma base de produção para SUVs híbridos e elétricos destinados não apenas ao mercado brasileiro, mas também à exportação para outros países da América Latina.
A mudança ajuda a contar uma história maior.
Nos últimos anos, montadoras chinesas deixaram de ser coadjuvantes para ocupar espaços antes dominados por marcas tradicionais da Europa, dos Estados Unidos e do Japão. A BYD assumiu a antiga fábrica da Ford na Bahia. A GWM ocupou a planta da Mercedes-Benz em São Paulo. Agora, tudo indica que a Omoda & Jaecoo herdará a fábrica da Jaguar Land Rover no Rio de Janeiro.
É um retrato claro da nova geografia da indústria automobilística mundial.
Se os planos forem confirmados, a capacidade da unidade poderá ser ampliada para algo próximo de 100 mil veículos por ano, multiplicando várias vezes a produção que a Jaguar Land Rover mantinha no local.
Para os trabalhadores e fornecedores da região, a notícia pode representar alívio. Em vez de uma fábrica fechada e empregos desaparecendo, existe a possibilidade de manutenção da atividade industrial e da chegada de novos investimentos.
No fim das contas, o encerramento da produção da Jaguar Land Rover não simboliza apenas a saída de uma montadora britânica. Representa algo maior: a consolidação do avanço chinês sobre um setor que durante décadas foi dominado por marcas ocidentais.
Os ingleses fecham a porta.
Os chineses entram pela garagem.
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