
A velha máxima de que “na política mudam as moscas, mas o coco é o mesmo” cai como uma luva na administração pública de Caxias. Terceira maior cidade do Maranhão, o município parece carregar uma sina histórica de desmandos administrativos, escândalos eleitorais e sucessivas intervenções da Justiça. A cassação de prefeitos, longe de ser exceção, virou quase rotina — um traço perverso que a cidade, perigosamente, parece ter naturalizado ao longo das décadas.
Nesta sexta-feira, a Justiça Eleitoral voltou a bater o martelo contra o comando do Palácio da Cidade. O juiz Rogério Monteles da Costa, da 4ª Zona Eleitoral, cassou os mandatos do prefeito José Gentil Rosa Neto e do vice-prefeito Eugênio de Sá Coutinho Filho, por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2024. A decisão é de primeira instância, mas em Caxias esse detalhe raramente tranquiliza: todas as cassações que vingaram começaram exatamente assim.
Confira o processo:
Clique aqui para ver o documento "0601030-84.2024.6.10.0004-46.pdf"
O processo foi ajuizado por Paulo Celso Fonseca Marinho Júnior, candidato derrotado no último pleito. Aqui reside um ponto que chama atenção e exige precisão histórica. O autor da ação é filho de Paulo Celso Fonseca Marinho, que teve o mandato de deputado federal cassado e acumula condenações que mantêm seus direitos políticos suspensos há quase duas décadas. E adivinha por que? Sim. Pelos mesmo motivos. O problema é crônico e cíclico em Caxias.
O simbolismo, ainda assim, é inevitável. A ação parte de alguém que carrega um sobrenome profundamente marcado por escândalos políticos no município. É a política local olhando para o próprio espelho, num cenário em que velhos vícios se reapresentam sob novas embalagens. Ainda que o histórico familiar não invalide o direito de ação, o contexto reforça a sensação de que Caxias gira em círculos.
A sentença descreve uma verdadeira “engenharia eleitoral” montada para desequilibrar o pleito. Um dos pontos centrais foi a contratação de mais de 7.800 servidores temporários em março de 2024, sem justificativa administrativa plausível, o que levou o município a extrapolar o limite legal de gastos com pessoal. Para a Justiça, a manobra teve claro viés eleitoral.
O processo também revelou perseguição política a servidores públicos. Funcionários que declararam apoio à oposição relataram pressões, ameaças e até suspensão de salários. Testemunhas confirmaram reuniões dentro de secretarias municipais em que o apoio explícito ao candidato da situação era exigido como condição para permanência no emprego. A máquina pública, mais uma vez, foi usada como instrumento de coerção.
As acusações avançam ainda para a compra direta de votos. Pagamentos via PIX, distribuição de cestas básicas e enxovais em troca de apoio eleitoral aparecem de forma consistente nos autos. Uma das testemunhas afirmou ter reunido nove familiares e recebido R$ 1.800. Em outro ponto considerado gravíssimo, surgiram relatos de ofertas de até R$ 50 mil para que candidatas desistissem da disputa, configurando violência política de gênero.
As investigações da Polícia Federal, no âmbito das operações Operação Funâmbulo e Secure Elections, reforçaram o conjunto probatório. Para o magistrado, as evidências foram suficientes para comprovar abuso de poder político e econômico, além de compra de votos, comprometendo de forma grave a legitimidade do processo eleitoral.
Com a decisão, foram anulados os diplomas de prefeito, vice-prefeito e do vereador eleito Gil Ricardo Costa Silva. Também foi declarada a inelegibilidade do ex-prefeito Fábio José Gentil Pereira Rosa, tio e arquiteto da eleição de José Gentil Rosa Neto, ampliando o alcance político da sentença. O Ministério Público Eleitoral já havia se manifestado favoravelmente à cassação.
Do ponto de vista prático, a decisão ainda comporta recurso ao Tribunal Regional Eleitoral, o que pode permitir que o prefeito permaneça no cargo até julgamento em instância superior. Mas, em Caxias, a experiência ensina que o tempo processual raramente muda o desfecho político.
Mais uma vez, o município mergulha em instabilidade institucional, insegurança administrativa e descrédito político. Entre recursos, liminares e possíveis novas eleições, quem paga a conta é sempre o cidadão. Enquanto prefeitos entram e saem pela porta da Justiça, Caxias segue prisioneira de um ciclo vicioso onde poder, dinheiro e abuso caminham juntos.
A máxima continua valendo: pode mudar o ator, mudar o sobrenome, mas o enredo insiste em ser rigorosamente o mesmo.
Em nota oficial, o prefeito declarou que acolhe a decisão da Justiça Eleitoral com respeito e tranquilidade, ressaltando que irá apresentar recurso às instâncias superiores, no exercício pleno do direito constitucional à ampla defesa. Segundo ele, a manifestação judicial não encerra o processo, e a defesa seguirá atuando para reverter o entendimento adotado na sentença.
NOTA OFICIAL
Recebo com respeito e serenidade a decisão proferida pela Justiça Eleitoral. Sempre acreditei nas instituições e na importância do devido processo legal, razão pela qual reafirmo minha confiança no Poder Judiciário.
Com a mesma tranquilidade e firmeza, informo que exercerei meu direito constitucional de recorrer da decisão, certo de que todas as instâncias devem ser respeitadas e ouvidas. Enquanto o recurso é analisado, permanecerei no exercício do mandato, conforme assegurado pela própria decisão judicial.
Seguirei trabalhando com responsabilidade, amor por Caxias e total dedicação ao povo que me confiou essa missão. Nosso compromisso com a cidade, com as políticas públicas e com o bem-estar da população permanece inalterado.
Caxias pode ter a certeza: o trabalho continua, com seriedade, respeito e fé na justiça.
Gentil Neto - Prefeito de Caxias
Nossa produção não conseguiu contato com os citados nessa reportagem porém assegura desde já o espaço para que possam exercer o direito de defesa pessoalmene ou através de suas assessorias jurídicas ou de comunicação.
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