
A série Gigantes do Direito, do passado e do presente, ficaria irremediavelmente incompleta sem a juventude brilhante, a intelectualidade rara e a dimensão universal de Ramsés Ramos, advogado e jornalista que soube dialogar com o mundo em múltiplas línguas, culturas e ideias. Um piauiense que extrapolou fronteiras, ocupou espaços reservados a poucos e construiu pontes entre o Direito, o jornalismo e a diplomacia internacional. Falecido de forma trágica em Moscou, longe de sua terra natal, Ramsés permanece vivo na memória intelectual do Brasil e, sobretudo, do Piauí, que se recusa a esquecê-lo, não por saudosismo, mas por reconhecer que certos homens não pertencem apenas ao seu tempo, pertencem à história.
Ramsés Bahury de Sousa Ramos foi um daqueles raros intelectuais universais, cuja trajetória desafia rótulos e limitações geográficas. Nascido em Teresina, em 28 de dezembro de 1962, ele construiu uma vida marcada pela inquietação intelectual, pela erudição e por uma profunda vocação para o diálogo entre culturas, ideias e povos.
Advogado de formação, Ramsés extrapolou cedo os limites do Direito tradicional. Tornou-se poliglota autodidata, dominando doze idiomas, aprendidos de forma independente, com livros, disciplina e uma voracidade intelectual incomum. Falava, lia e escrevia em línguas que poucos ousavam estudar, como o árabe e o esperanto, o que o transformou em um verdadeiro cidadão do mundo.
Sua sensibilidade artística encontrou abrigo na poesia. Ramsés publicou obras marcantes como Dois gumes, Percurso do verbo e Poema da paixão, além de participar de coletâneas que revelam sua inquietação estética e filosófica. Era um poeta de linguagem densa, reflexiva e universal, capaz de unir rigor intelectual e emoção.
No jornalismo, sua atuação foi igualmente expressiva. Em Teresina, destacou-se como jornalista e também como advogado do Sindicato dos Jornalistas, onde ofereceu não apenas assessoria jurídica, mas uma visão política e cultural ampla sobre o papel da imprensa na democracia. Sua contribuição fortaleceu a organização da categoria e elevou o debate profissional.
Essa atuação o levou à Federação Nacional dos Jornalistas, onde desempenhou papel decisivo na articulação internacional da entidade. Foi um dos principais incentivadores e coordenadores do Primeiro Encontro Internacional de Jornalistas realizado no Brasil, evento que reuniu profissionais de diversos continentes e projetou o país no cenário do jornalismo global.
O sucesso do encontro deveu-se, em grande parte, à sua capacidade de comunicação em múltiplos idiomas, elemento central para a produção, mediação e articulação diplomática do evento. Diante de jornalistas do mundo inteiro, Ramsés lançou o nome de Armando Rolemberg à presidência da Organização Internacional de Jornalistas, candidatura que se consagrou vitoriosa.
A eleição de Rolemberg, ocorrida na década de 1980, representou um marco histórico, foi a primeira vez que um latino-americano comandou a OIJ, período em que a sede da instituição foi transferida de Praga, na República Checa, para Madrid, na Espanha. Ramsés acompanhou de perto esse processo, atuando como jornalista e secretário da organização em eventos históricos na Europa, Ásia e África.
Sua experiência internacional incluiu residência em Praga e Madri, além da cobertura de conflitos e acontecimentos globais, como a guerra do Iêmen. Poucos jornalistas piauienses, e mesmo brasileiros, ousaram tanto. Ramsés leu os grandes pensadores no idioma original e bebeu diretamente das fontes da filosofia, da política e da cultura mundial.
De volta ao Brasil, passou a atuar no setor privado e institucional. Trabalhou como assessor de comunicação de uma multinacional, sendo selecionado entre dezenas de candidatos graças à sua fluência linguística. Posteriormente, prestou serviços à Organização das Nações Unidas e, em seguida, passou a assessorar a presidência do Superior Tribunal de Justiça, na gestão do ministro Antônio de Pádua Ribeiro.
Mesmo inserido em espaços de poder e prestígio, Ramsés nunca abandonou a cultura. Foi músico, crítico de arte, tradutor e um dos poucos brasileiros que se arriscaram a traduzir Walt Whitman, em parceria com a Universidade de Brasília, enfrentando o desafio de verter para o português a complexidade de Folhas de Relva, obra fundamental da literatura universal.
Sua vida foi interrompida de forma trágica em 20 de setembro de 1998, em Moscou, quando cumpria uma missão diplomática acompanhando o ex-presidente do STJ. À época, era casado com a jornalista Arlinda Barbosa Carvalhos, união de apenas nove meses, abruptamente rompida por uma morte precoce, que privou o Brasil de um de seus intelectuais mais completos.
Ramsés Bahury Ramos permanece como um gigante do Direito, do jornalismo e da cultura, um piauiense que extrapolou fronteiras e provou que o talento, quando aliado ao estudo e à coragem, pode conquistar o mundo. Sua história é um patrimônio do Piauí, do Brasil e da imprensa internacional, um legado que ainda ecoa, em muitas línguas, muito além do tempo.
Encerrar este texto é, ao mesmo tempo, um gesto de gratidão e de emoção profunda.
Talvez este tenha sido um dos mais gratificantes capítulos da série Gigantes do Direito, porque não se trata apenas de alguém admirado à distância, mas de alguém conhecido, convivido, partilhado de perto. Esta homenagem carrega um carinho todo especial, não apenas para Ramsés, mas também para a família Bahury Ramos, que mora em meu coração, uma família que aprendi a amar como se fosse a minha própria. Ramsés não partiu por completo, permaneceu vivo em Arminda Ramos, a mãe, que mais tarde foi ao seu encontro, e segue presente em seus irmãos Garibaldi, Renzo e Carla Ramos, guardiões de sua memória e de seu legado.
Ramsés não deixou filhos, mas deixou algo maior que a própria prole, uma legião de familiares, amigos, leitores, admiradores e discípulos, espalhados pelo Brasil e pelo mundo, todos tocados por sua inteligência, sua humanidade e sua rara capacidade de fazer do Direito e da palavra uma ponte entre culturas, povos e afetos.
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