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Cultura DIREITO E HUMANISMO

Higino Cunha, o jurista-poeta que moldou a alma intelectual do Piauí

A vida e o legado do mestre que uniu Direito, literatura e cultura para transformar gerações

07/12/2025 às 07h05
Por: Douglas Ferreira
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Higino Cunha, um gigante do Direito piauiense - Foto: Reprodução
Higino Cunha, um gigante do Direito piauiense - Foto: Reprodução

Há figuras que não pertencem apenas ao seu tempo, mas ao imaginário de toda uma sociedade. Entre esses raros nomes está Higino da Frota Cunha, considerado por muitos o primeiro grande intelectual da vida republicana piauiense. Sua presença marcou o Direito, a política, a literatura e a formação cultural de gerações. Ele não apenas viveu sua época, mas definiu parte do que ela seria no Piauí.

Nascido em Teresina, em 1857, Higino came de uma família tradicional que lhe deu o que poucos tinham naquelas décadas: acesso à educação refinada, ao estudo das línguas, à retórica e aos clássicos da cultura ocidental. Seu destino parecia traçado desde cedo. Tornou-se um jovem brilhante, inquieto, sedento de conhecimento e dono de uma inteligência que tantos, ainda hoje, qualificam como extraordinária.

O eixo natural da elite intelectual do Nordeste o levou ao Recife, onde ingressou na renomada Faculdade de Direito. Foi ali que teve contato direto com alguns dos maiores pensadores do século XIX, absorvendo a efervescência filosófica, política e literária do ambiente. Recife, para ele, foi mais que um campus. Foi um laboratório. Foi o espaço onde Higino ampliou sua visão de mundo e consolidou a formação que o acompanharia por toda a vida.

Ao retornar ao Piauí, iniciou uma trajetória impecável na advocacia. Logo se destacou como jurista respeitado, dono de um raciocínio articulado e de uma oratória firme, elegante e incisiva. Era procurado tanto por clientes quanto por colegas, pois sabia unir técnica jurídica com profundo senso de justiça. Higino Cunha pertencia àquela geração em que o advogado era também humanista, estudioso e referência moral.

Sua carreira, no entanto, não se limitou aos autos e aos tribunais. Tornou-se magistrado e também professor, moldando boa parte da geração que viria a conduzir o estado nas primeiras décadas da República. Era admirado pela firmeza intelectual e pela capacidade de formar alunos conscientes, críticos e verdadeiramente comprometidos com o Direito. A sala de aula era para ele uma extensão do compromisso com o futuro.

No campo político, teve atuação decisiva. Foi deputado provincial no final do Império e deputado estadual na República, sempre com posições firmes e discursos memoráveis. Nos gabinetes, mantinha postura moral que o distinguia num ambiente frequentemente marcado por paixões e interesses. Era o político que falava pouco, mas dizia muito. E quando dizia, dizia com força. Sua palavra tinha peso.

Sua atuação como escritor e jornalista completava sua figura multifacetada. Higino publicava poemas, crônicas, artigos e análises políticas nos principais periódicos do estado. Sua escrita, marcada por elegância e ironia fina, tornou-se referência. Obras como Flores do Campo e seus discursos compilados ajudaram a alicerçar a literatura piauiense. Ele fez parte da primeira geração que deu forma ao imaginário cultural do Piauí republicano.

Em 1917, quando a Academia Piauiense de Letras foi fundada, não houve dúvida sobre quem deveria ocupar uma das cadeiras de fundador. Higino Cunha tornou-se titular da Cadeira nº 8. Ali, ajudou a construir a casa que se tornaria a guardiã da memória literária do Piauí. Para muitos acadêmicos que vieram depois, ele é considerado patrono espiritual da instituição.

O mais impressionante, porém, foi sua capacidade de unir mundos que raramente se encontram. Direito, poesia, política, literatura, oratória, filosofia. Em Higino Cunha, tudo se conciliava com naturalidade. Era o intelectual que citava clássicos, a autoridade jurídica que encantava tribunais, o poeta que emocionava plateias e o homem público que inspirava confiança. Seu nome tornou-se sinônimo de cultura e refinamento.

Seu legado não se encerrou com sua morte em 1918. Ao contrário, espalhou-se em círculos que continuam influenciando o Piauí contemporâneo. Muitos dos grandes juristas e escritores do estado beberam diretamente de sua fonte. Seu compromisso com a erudição, com a ética, com a defesa da cultura humanista e com a força da palavra permanece como farol para quem valoriza o pensamento crítico e a formação integral.

Hoje, ao resgatarmos sua trajetória, percebemos que Higino Cunha não foi apenas um homem de seu tempo. Ele foi um homem que elevou o seu tempo. O Piauí que conhecemos, em sua vida intelectual e na dignidade de sua tradição jurídica, carrega traços profundos de sua presença. Higino foi, e ainda é, um daqueles raros personagens que fazem um estado parecer maior do que realmente é.

Homenageá-lo na série Gigantes do Direito do passado e do presente não é apenas um gesto de memória. É reconhecer que, sem figuras como ele, a história jurídica e cultural do Piauí estaria incompleta. Seu exemplo continua atual, inspirador e necessário. Porque, acima de tudo, Higino Cunha deixou ao Piauí um legado que merece ser sempre dito em voz alta: a grandeza do conhecimento, a força da cultura e o valor inegociável da inteligência.

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A NOTÍCIA E O FATO
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Sobre Douglas Ferreira é multimídia. Além de jornalista, é bacharel em Direito. Foi repórter da TV Clube, afiliada da Rede Globo, por 10 anos e, em Caxias, no Maranhão, apresentou o programa “Fala Caxias”. Fundou e dirigiu por seis anos a Folha do Cocais. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Caxias e retornou a Teresina como âncora da TV Meio Norte. Por 20 anos, reportou e apresentou na TV Antena 10, afiliada da Record. Também foi assessor de imprensa do Tribunal de Justiça do Piauí e passou por rádios e pelos maiores portais do Estado. Sua vida é o jornalismo. No Sistema Move de Comunicação, foi editor do Portal Move Notícias e apresentador do Business Cast, do canal movetvweb no YouTube. Agora, está à frente do Gazeta Hora1.
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