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Editorial FAVAS CONTADAS

Como o Piauí tropeçou na sua própria política

Da política como missão à política como negócio de família e o preço do atraso que ainda pagamos.

24/08/2025 às 10h58 Atualizada em 24/08/2025 às 14h42
Por: Redação GH1 Fonte: Arthur Feitosa
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Como o Piauí tropeçou na sua própria política

A política é, em sua essência, uma escolha: missão pública ou trampolim pessoal. No Piauí, essa escolha determinou destinos muito distintos. Tivemos governadores que encararam a função como sacrifício e dever, deixando marcas de seriedade e respeito. E tivemos também aqueles que fizeram do poder apenas um meio de ascensão social, econômica e familiar — convertendo o Estado em cabide de empregos e máquina de perpetuação.

Varios são exemplos de seriedade: Petrônio Portela, Chagas Rodrigues, Dirceu Arcoverde, Lucídio Portela e Freitas Neto

O Piauí já conheceu gestores que, mesmo diante de crises, se mantiveram acima das tentações da política miúda. Dois nomes resistem ao tempo como símbolos de integridade: Lucídio Portela (1979–1983) e Freitas Neto (1991–1994).

Lucídio, médico de formação e irmão do ex-governador Petrônio Portella, assumiu o governo num período conturbado, mas deixou uma marca rara: passou pelo cargo mais alto do Estado sem mancha de corrupção. Sua postura discreta, austera e técnica o fez ser respeitado até por adversários políticos. Governou com espírito público, sem transformar o Estado em balcão de negócios pessoais.

Freitas Neto, eleito em 1990, herdou um Piauí devastado: o BEP (Banco do Estado do Piauí) fechado e com dívidas impagáveis; salários atrasados; a AGESPISA falida; mais de 30 mil gratificações e cargos fantasmas corroendo a folha. Mesmo assim, governou com firmeza e sem escândalos. Não enriqueceu com a política, não montou dinastias, não deixou legados de investigações. Até hoje, é lembrado como um homem público que enfrentou o caos sem transformar o governo em negócio.

Esses dois exemplos mostram que é possível exercer poder sem confundir serviço público com projeto de enriquecimento pessoal. São raridades na história recente do Estado.

A virada: política como projeto de poder

Mas o Piauí mudou de rumo. Desde 2003, com a ascensão de Wellington Dias (PT), a política lógica deixou de ser missão e passou a ser projeto de poder. A antiga elite política, com seus vícios e virtudes, foi varrida do tabuleiro. Em seu lugar, consolidou-se uma nova elite, ainda mais centralizadora e predatória.

Em duas décadas, o que se vê é a consolidação de carreiras pessoais e de famílias inteiras que fazem da máquina pública trampolim para status, riqueza e blindagem política. Escândalos de corrupção, fraudes em licitações, hospitais abandonados, escolas sucateadas, obras fantasmas — tudo em nome da manutenção do poder.

A política virou negócio. O Estado, uma empresa familiar. O cidadão, apenas número eleitoral.

O preço do atraso

Enquanto isso, o Piauí ficou para trás. Na economia, nossas empresas e nossos empresários locais são punidos com tributos mais altos que os cobrados de produtos importados. Produzir no Piauí é um ato de resistência. O ambiente de negócios é hostil, e a elite empreendedora é asfixiada.

Já na educação o que predomina são os altos índices de analfabetismo funcional e evasão escolar. O futuro das novas gerações é sacrificado para manter uma massa dependente do assistencialismo político.

O Piaui já foi no passado recente, modelo regional de saúde.  Hoje o que temos são hospitais sobrecarregados, filas intermináveis, terceirizações disfarçadas, incapacidade crônica de gestão.

Enquanto isso, seguimos direto para o futuro sem Identidade nenhuma. Somos um povo sem rumo, que pouco conhece sua própria história e vive refém de governos que cultivam dependência em vez de cidadania.

Enquanto o Ceará e o Maranhão se modernizaram, atraíram indústrias e geraram oportunidades, o Piauí perdeu a corrida para o futuro. Não por falta de capacidade, mas por escolhas políticas deliberadas.

De cidadãos a reféns

O contraste é doloroso: quando governado por homens que encaravam a função como missão — ainda que imperfeitos — o Estado ao menos tinha rumo. Hoje, sob carreiristas profissionais, vivemos a paralisia. Produzimos eleitores dependentes, não cidadãos livres.

A política, que deveria ser serviço público, virou trampolim de carreiras pessoais. O resultado é um Piauí que exporta sua juventude, que reprime seus empreendedores e que não oferece horizontes. Um Estado condenado, não pelo destino, mas pelos governantes que escolheram transformar missão em negócio.

O que está em jogo

O Piauí poderia ser outro. Poderia ser referência em educação, em energia renovável, em agronegócio sustentável, em turismo de alto valor. Mas enquanto a lógica for de manter famílias no poder e de explorar o Estado como se fosse patrimônio privado, nada mudará.

A pergunta que fica é simples, mas brutal: queremos líderes que encarem a política como missão ou continuaremos reféns daqueles que só a usam como trampolim?

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