
As revoluções não nascem do nada, nem se fazem da noite para o dia. Exigem método e etapas. Seguem um roteiro clássico da história: primeiro, a tomada do poder. Depois, o expurgo, quando todos os inimigos — reais ou imaginários — são perseguidos, silenciados, eliminados. Só então vêm a contra-revolução e, por fim, a chamada “normalização”.
O Brasil já atravessou a primeira etapa. A eleição — como confessaram José Dirceu e o ministro do STF Luís Roberto Barroso — não foi vencida, foi “tomada”. Agora, mergulha de cabeça na segunda: o expurgo.
Não se trata de retórica. São fatos. O mandato de Deltan Dallagnol foi arrancado. Daniel Silveira foi triturado em um processo “exemplar”. Carla Zambelli foi forçada ao exílio. Eduardo Bolsonaro, filho de um ex-presidente, permanece em autoexílio nos Estados Unidos, para não ser preso em sua própria terra.
O expurgo não parou nos políticos. Alcançou também os jornalistas. O caso mais cruel é o de Oswaldo Eustáquio: preso, entrou andando e saiu numa cadeira de rodas. Hoje vive exilado na Espanha, ainda que já possua cidadania americana. Outros seguiram a mesma trilha: Allan dos Santos, Paulo Figueiredo, Rodrigo Constantino — todos obrigados a resistir numa trincheira jornalística em território estrangeiro.
Até senadores foram reduzidos a réus de exceção. Marcos do Val carrega tornozeleira eletrônica, contas bloqueadas e redes sociais censuradas. É o retrato de um parlamentar transformado em fantasma político, um senador zumbi.
E agora, a culminância do expurgo: o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro. Um chefe de Estado que governou o país por quatro anos hoje cumpre prisão domiciliar sem condenação definitiva, sem crime tipificado, com julgamento em curso e sob silêncio imposto. Está proibido de receber visitas, proibido de falar com o filho exilado, proibido até de ter celular em casa — o dele e os de todos ao redor foram confiscados. Suas redes sociais estão cassadas. Sua voz, calada. Humilhação total.
O Brasil inverteu a lógica do Estado de Direito. Agora, o indivíduo primeiro cumpre pena para depois ser julgado e, talvez, condenado. A presunção de inocência virou letra morta. O devido processo legal foi soterrado pela arbitrariedade de um só homem: Alexandre de Moraes.
O que se vê não é democracia. É um tribunal de exceção travestido de Corte Constitucional. Um magistrado que concentra em si todos os papéis — polícia, Ministério Público, juiz e carcereiro. A toga erguida como cetro.
A história ensina. Após 1º de janeiro de 1959, o povo cubano vibrou com a vitória da revolução. O filme Soy Cuba retrata esse breve período de euforia. Mas logo vieram repressão, expurgos e mais de seis décadas de ditadura. Uma nação promissora transformou-se numa prisão a céu aberto.
O Brasil segue roteiro semelhante. A diferença é que aqui a tirania não é de um caudilho, mas de uma elite togada, em consórcio com o Executivo, que concentra em si todos os instrumentos de repressão.
E para piorar, o próprio presidente Lula contribui para reforçar o clima autoritário. Em recentes declarações, afirmou que quem questiona o STF “não merece respeito” e defendeu que as decisões da Corte sejam “acatadas sem contestação”, sob pena de “quebra da ordem democrática”. Um discurso que, na prática, normaliza a censura e a perseguição política.
O que Moraes e o STF pretendem com tudo isso? Silenciar, amedrontar, domesticar. Criar a falsa sensação de que a “normalidade democrática” segue intacta. Mas não segue. A cada jornalista preso, a cada parlamentar calado, a cada líder político neutralizado, o Brasil se afasta da democracia e mergulha na ditadura de toga.
Resta a pergunta: o povo brasileiro aceitará passivamente até a “normalização”? Ou terá coragem de iniciar a contra-revolução antes que o último fio de liberdade seja arrancado?
Porque, como já cantou Chico Buarque — ironicamente um ídolo da esquerda —, “apesar de você, amanhã há de ser outro dia”.
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