
Sou um entusiasta da tecnologia — e digo isso com orgulho. Admiro os avanços que transformam nossa rotina, nossa mobilidade e nossas formas de comunicação. E não tenho problema em reconhecer: boa parte disso vem da China. Cerca de 99% dos nossos produtos eletrônicos têm componentes chineses ou são montados por lá. É impossível falar de tecnologia de ponta sem mencionar o país asiático. No entanto, uma coisa é admirar a sabedoria milenar do povo chinês e sua capacidade de inovação. Outra, bem diferente, é fechar os olhos para os riscos reais representados pelo regime ditatorial e expansionista que comanda o país.
Recentemente, Israel e Estados Unidos acenderam o alerta máximo em relação aos veículos elétricos fabricados na China — em especial os da BYD, que desbancaram até a Tesla em vendas globais. As Forças de Defesa de Israel proibiram o uso do modelo ATTO 3 em áreas militares de alta segurança, temendo que os sensores do carro sejam capazes de captar e transmitir informações sensíveis. A suspeita não é infundada. Especialistas em cibersegurança, como Harel Menashri, da ISA (Agência de Segurança de Israel), comparam esses carros a “smartphones sobre rodas”, repletos de câmeras, microfones e sistemas conectados.
Nos Estados Unidos, na época do governo Biden e agora com Trump está em curso uma investigação formal sobre os riscos à segurança nacional representados por esses “carros inteligentes”. Embora o comunicado oficial não cite marcas, está claro que a preocupação gira em torno das montadoras chinesas. A justificativa? Esses veículos podem estar coletando dados de infraestrutura, hábitos de consumo e até localização dos cidadãos americanos — e enviando tudo para servidores ligados ao governo chinês.

Como alguém que acompanha de perto o impacto da tecnologia no cenário global, reconheço: há um abismo entre a eficiência técnica dos produtos chineses e a confiabilidade do software embarcado neles. A reputação do governo chinês em relação à privacidade é péssima. Casos como os dos balões espiões, do TikTok e das câmeras de vigilância da Hikvision já deixaram claro que confiar cegamente em softwares controlados por Pequim pode ser um erro grave.
A lição aqui é simples: tecnologia não é neutra quando está sob controle de regimes autoritários. É preciso cautela — e, acima de tudo, discernimento. Não se trata de demonizar o povo chinês, nem seus engenheiros e empreendedores brilhantes. Trata-se de entender que, quando a inteligência embarcada nos dispositivos é potencialmente usada como ferramenta de vigilância estatal, o barato pode sair caro. E isso vale não só para Israel ou os Estados Unidos — mas também para nós, aqui no Brasil.
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