
Tem gente que dá mais atenção à forma do que ao conteúdo. É o que parece estar acontecendo agora no entorno do presidente Lula. Em vez de se concentrar exclusivamente nas suspeitas investigadas pela Polícia Federal envolvendo seu filho mais velho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, parte do ambiente político próximo ao Palácio do Planalto resolveu prestar atenção em outra coisa: o nome dado pela PF a uma das fases da operação.
Pois é.
A operação foi batizada de “Elli”. E o nome provocou incômodo entre lulistas, que enxergaram ali uma possível referência indireta ao conhecido “Faz o L”, mote que marcou a campanha do presidente. Pode ser coincidência? Pode. Pode ser uma brincadeira deliberada? Também pode. Mas a própria reação ao nome já diz alguma coisa sobre o momento político.
Porque, convenhamos, diante de uma investigação que apura suspeitas de lavagem de dinheiro e envolve o filho do presidente da República, o mais relevante deveria ser descobrir o que aconteceu com o dinheiro, de onde veio, para onde foi e quem participou das operações.
O nome da operação deveria ser o detalhe.
Mas virou assunto.
E é justamente aí que aparece uma inversão curiosa de prioridades. Enquanto a Polícia Federal avança sobre elementos que, segundo seus próprios documentos, indicariam possível prática reiterada de crimes de lavagem de capitais e apontam para a necessidade de aprofundar a investigação envolvendo Roberta Moreira Luchsinger e outros personagens, o debate político se desloca para uma questão quase semântica: “Elli” seria uma indireta para “Faz o L”?
Ora, menos.
O centro da discussão não deveria ser o nome da operação, mas o conteúdo da investigação.
Segundo a própria Polícia Federal, a Operação Elli surgiu a partir da análise de materiais reunidos em fases anteriores, que teriam revelado elementos indicativos de lavagem de dinheiro atribuídos a Antônio Carlos Camilo Antunes, o chamado “Careca do INSS”, e integrantes de seu círculo financeiro. Nesse contexto, os investigadores apontaram possível envolvimento de Roberta Luchsinger e solicitaram medidas cautelares, posteriormente deferidas pela Justiça.
É esse conteúdo que precisa ser esclarecido.
Não o apelido da operação.
Não a sonoridade do nome.
Não a possibilidade de alguém ter enxergado uma provocação política onde talvez exista apenas uma denominação operacional.
A verdade é que, se as suspeitas forem infundadas, será muito fácil derrubá-las com provas e explicações. Se forem consistentes, o nome escolhido pela PF será o menor dos problemas.
O que chama atenção, portanto, é a sensibilidade do entorno presidencial com uma denominação que poderia, no máximo, ser interpretada como uma referência indireta a um slogan político. Isso passa a impressão de que o poder se incomoda mais com a embalagem do que com o conteúdo da investigação.
E isso é particularmente preocupante quando o investigado é filho do presidente da República.
Lulinha, obviamente, tem direito à defesa, ao contraditório e à presunção de inocência. Investigação não é condenação. Suspeita não é culpa. E qualquer responsabilização criminal precisa estar baseada em provas e passar pelo devido processo legal.
Mas justamente por isso a pergunta deveria ser outra: o que a investigação encontrou?
Porque, se há indícios de lavagem de dinheiro, o que importa é a origem dos recursos, sua movimentação, seus destinatários e as relações entre os personagens investigados.
O resto é fumaça.
Ou seria distração?
No fim das contas, fica uma impressão incômoda: se o problema é apenas o nome “Elli”, está fácil resolver. O difícil será responder às perguntas que estão dentro dos autos da investigação.
E se “Elli” for mesmo uma referência ao “Faz o L”?
Ora, será apenas um nome.
Se os fatos forem esclarecidos, ninguém mais lembrará dele.
O que não pode desaparecer, atrás de uma discussão sobre palavras, são as perguntas sobre dinheiro, influência, negócios e possíveis crimes. É isso que interessa ao cidadão.
Porque, quando a forma começa a incomodar mais do que o conteúdo, talvez seja sinal de que o conteúdo esteja incomodando demais.
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