
O presidente Lula parece enfrentar um problema que nenhuma equipe de marketing consegue esconder por muito tempo: os esqueletos estão aparecendo dentro do próprio armário. E o problema político é que eles não surgem isoladamente. Quando um escândalo começa a perder espaço, outro fato novo aparece. Quando o governo tenta mudar a pauta, uma nova revelação, investigação ou suspeita volta a colocar pessoas próximas ao presidente no centro do noticiário.
Primeiro veio o escândalo dos descontos indevidos em benefícios do INSS, uma crise que ganhou proporções nacionais e colocou entidades, dirigentes e pessoas ligadas ao universo político do governo sob intenso escrutínio. No meio do furacão apareceu o nome de Frei Chico, irmão do presidente e ligado a uma das entidades envolvidas nas investigações. Lula pode insistir que não responde pelos atos de familiares, e juridicamente é evidente que a responsabilidade penal é individual. Mas, politicamente, o problema é outro: parentesco não transfere culpa, mas transfere desgaste.
Como se não bastasse a crise do INSS, o governo ainda convive com o peso de outros episódios, entre eles o caso do Banco Master, além de sucessivas crises políticas e econômicas. Agora, porém, um novo foco de tensão ameaça produzir um desgaste ainda mais delicado: as investigações que envolvem Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
E aí o problema deixa de estar apenas próximo do presidente.
Está dentro de casa.
As informações atribuídas às investigações da Polícia Federal apontam para suspeitas de tráfico de influência, relações empresariais e possíveis articulações junto a órgãos da administração pública. Mensagens recuperadas pelos investigadores, segundo as reportagens que vieram a público, indicariam a atuação de uma rede formada por empresários e pela lobista Roberta Luchsinger, com referências a interesses em contratos e negociações envolvendo estruturas do governo federal.
O ponto mais sensível é justamente a suspeita de que Lulinha pudesse ter sido beneficiário ou destinatário indireto de recursos relacionados a negócios que dependiam de acesso, influência ou contratos dentro da máquina pública. Trata-se, até aqui, de matéria investigativa e de suspeitas que precisam ser comprovadas. Esse cuidado é indispensável. Investigação não é condenação. Indício não é sentença.
Mas também não se pode cometer o erro contrário.
Não se pode fingir que nada está acontecendo.
E é exatamente aí que Lula começa a encontrar uma dificuldade política crescente. Quanto mais a investigação avança e novos detalhes aparecem, mais difícil fica para o presidente responder sem correr o risco de entrar em um terreno perigoso: o de falar sobre fatos que envolvem diretamente o próprio filho.
Lula conhece como poucos o funcionamento de uma crise política. Sobreviveu a denúncias, investigações, processos, campanhas eleitorais e anos de polarização. Sempre encontrou uma narrativa. Sempre teve uma resposta. Sempre soube transformar ataque em discurso político.
Mas Lulinha parece ser um problema de natureza diferente.
Porque uma coisa é responder sobre ministros.
Outra é responder sobre aliados.
Outra, completamente diferente, é ter de explicar investigações que alcançam o próprio filho.
E até agora, o silêncio, as negativas genéricas e as respostas apresentadas não parecem suficientes para encerrar as perguntas que surgem a cada nova revelação.
De onde vieram determinados recursos?
Qual era exatamente a relação entre Lulinha, Roberta Luchsinger e os empresários citados?
Por que mensagens discutiam negócios, pagamentos e contatos dentro da estrutura federal?
Houve, ou não, utilização da proximidade com o poder para abrir portas e facilitar interesses privados?
São perguntas incômodas. E perguntas incômodas, quando não recebem respostas convincentes, tendem a crescer.
O caso dos contratos e das negociações envolvendo a área da Saúde, incluindo a discussão sobre medicamentos à base de canabidiol e uma minuta contratual de centenas de milhões de reais, torna o cenário ainda mais explosivo. O simples fato de pessoas próximas ao centro do poder aparecerem em conversas sobre negócios dessa dimensão já seria politicamente relevante. Quando essas conversas passam a ser examinadas pela Polícia Federal sob suspeita de tráfico de influência e corrupção, a situação deixa de ser apenas uma crise de comunicação.
Passa a ser uma crise de credibilidade.
E é justamente a credibilidade que Lula precisará preservar para chegar competitivo à campanha de reeleição.
O presidente tenta falar de economia, programas sociais, investimentos e resultados do governo. Mas seus adversários encontraram um flanco que dificilmente será abandonado: a sucessão de problemas que envolve pessoas do seu entorno familiar e político.
O caso Frei Chico mantém viva a crise do INSS.
O caso Lulinha abre uma nova frente de desgaste.
E cada nova informação da investigação alimenta a sensação de que existe sempre mais alguma coisa escondida no armário.
É cedo, evidentemente, para antecipar conclusões judiciais. Lulinha tem direito à ampla defesa, ao contraditório e à presunção de inocência. Se não houver provas suficientes, não pode haver condenação. Essa é uma regra básica do Estado de Direito.
Mas Lula enfrenta outro tribunal.
O tribunal da opinião pública.
E nele não basta dizer que não há culpa criminal. A política exige explicações. Exige transparência. Exige respostas capazes de dissipar dúvidas.
O presidente pode até não ter cometido qualquer irregularidade. Pode até não ter participado de nenhuma negociação investigada. Mas, se pessoas tão próximas continuam surgindo no centro de escândalos e investigações, o desgaste inevitavelmente bate à porta do Palácio do Planalto.
O problema de Lula, portanto, pode não ser apenas o que a Polícia Federal descobrirá.
O problema é que, a cada nova revelação, cresce a impressão de que o presidente precisa abrir mais uma porta para verificar se existe outro esqueleto dentro do armário.
E, para quem se prepara para disputar uma reeleição, administrar adversários externos já é difícil.
Muito mais complicado é descobrir que parte da tempestade está soprando de dentro de casa.
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