
Pedreiras, a histórica Princesa do Mearim, amanheceu nesta terça-feira, dia 18, diante de uma cena que ultrapassa os limites da criminalidade comum. Câmeras de segurança registraram dois homens armados chegando a um supermercado, agindo com aparente tranquilidade, espalhando gasolina pelo estabelecimento e, em seguida, ateando fogo ao local.
Havia clientes e um funcionário dentro do supermercado.
Não se tratava de uma ação escondida nas sombras da madrugada. Não foi um crime cometido em uma estrada deserta. A violência aconteceu à luz do dia, em um estabelecimento comercial, diante de pessoas inocentes que poderiam ter morrido queimadas ou atingidas pelos criminosos armados.
Os autores fugiram logo depois.
O Corpo de Bombeiros foi acionado e conseguiu conter as chamas, mas parte da estrutura foi destruída. Felizmente, não houve feridos. A Polícia Civil deverá investigar o caso, identificar os responsáveis e esclarecer a motivação do ataque.
Mas há uma pergunta que vai muito além de descobrir quem apertou o gatilho ou riscou o fósforo: o que está acontecendo com a segurança pública em nossas cidades?
O episódio de Pedreiras não pode ser tratado como mais uma simples ocorrência policial. Quando criminosos se sentem à vontade para entrar armados em um estabelecimento comercial, derramar combustível e provocar um incêndio com pessoas no interior do prédio, a mensagem transmitida é aterrorizante.
É a mensagem de que o criminoso perdeu o medo.
E quando o criminoso perde o medo, quem passa a viver com medo é a população.
O comerciante teme abrir as portas. O trabalhador teme estar no lugar errado. O cliente teme entrar em um estabelecimento. A família teme receber uma ligação anunciando uma tragédia. E, pouco a pouco, a rotina de uma cidade passa a ser submetida à lógica da intimidação.
É assim que grupos criminosos conquistam território, não necessariamente ocupando prédios públicos ou declarando oficialmente seu domínio, mas impondo medo, silêncio e obediência pela ameaça.
A comparação com organizações terroristas, contudo, precisa ser feita com responsabilidade. No Brasil, facções criminosas são juridicamente tratadas de forma diferente de grupos formalmente classificados como organizações terroristas. Mas a população que presencia ataques incendiários, ameaças, execuções e ações de intimidação em plena luz do dia pouco se conforta com a diferença técnica quando a consequência prática é a mesma: o medo coletivo.
E por que chegamos a esse ponto?
Onde está a prevenção? Onde está a inteligência policial? Onde está o combate efetivo às organizações criminosas? Onde está o Estado antes que o fogo seja ateado, antes que o comércio seja atacado e antes que uma pessoa inocente seja transformada em vítima?
Não basta aparecer depois, registrar a ocorrência, abrir inquérito e prometer investigação. É evidente que a Polícia Civil precisa investigar e prender os responsáveis. Mas segurança pública não pode funcionar apenas depois do crime consumado.
Quando criminosos agem abertamente, armados e sem qualquer preocupação em esconder a própria ousadia, é inevitável discutir a certeza que eles parecem ter de que conseguirão escapar.
A impunidade, ou mesmo a percepção de impunidade, é combustível para a reincidência e para a escalada da violência. Se o criminoso acredita que pode atacar, fugir e voltar às ruas rapidamente, a punição deixa de funcionar como fator de contenção.
O caso de Pedreiras precisa ser investigado até o fim. Os responsáveis precisam ser identificados, presos e responsabilizados dentro da lei. Mas também precisa servir de alerta.
Porque, quando o crime passa a agir em plena luz do dia, armado, incendiando estabelecimentos e colocando vidas inocentes em risco, não estamos diante de uma simples estatística.
Estamos diante de uma demonstração de força.
E um Estado que permite que o medo ocupe o espaço da autoridade corre o risco de assistir, pouco a pouco, à população se tornar refém.
Pedreiras não pode aceitar que a Princesa do Mearim seja transformada em cenário de terror.
O Maranhão não pode se acostumar.
E o Nordeste não pode normalizar o absurdo.
Porque o dia em que a população considerar normal ver homens armados entrando em um supermercado, espalhando gasolina e colocando fogo em um estabelecimento com pessoas dentro será o dia em que o crime terá conseguido algo ainda mais perigoso do que destruir patrimônio.
Terá conseguido destruir a sensação de segurança de toda uma sociedade.
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