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Piauí se despede de Vilma Alves, uma lady da Segurança Pública

Primeira delegada mulher e referência no combate à violência contra a mulher, Vilma Alves deixa uma trajetória de quase cinco décadas marcada pela coragem, autenticidade e uma forma muito própria de exercer autoridade

22/08/2026 às 14h04
Por: Douglas Ferreira
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Vilma Alves, a lady da Polícia Civil do Piauí - Foto: Reprodução
Vilma Alves, a lady da Polícia Civil do Piauí - Foto: Reprodução

O Piauí se despede neste sábado, 22 de agosto, de uma mulher que ajudou a escrever a história da Segurança Pública do Estado. Aos 79 anos, morreu a delegada aposentada Vilma Alves, depois de sofrer um infarto e permanecer internada no Hospital São Marcos, em Teresina. Mas reduzir Vilma Alves a uma nota de falecimento ou a uma simples enumeração de cargos seria cometer uma injustiça com uma trajetória que ultrapassou os limites da Polícia Civil.

O Piauí perdeu uma lady da Segurança Pública.

Mesmo aposentada, Vilma Alves continuava sendo uma referência, um patrimônio da Polícia Civil do Piauí e, sobretudo, uma personagem fundamental na história da luta das mulheres piauienses por respeito, proteção e espaço. Ela foi pioneira. A primeira mulher a ingressar como delegada na Polícia Civil do Estado, uma das primeiras grandes vozes no enfrentamento à violência contra a mulher e também a primeira titular da Delegacia Especializada da Mulher.

E Vilma Alves não era delegada de gabinete.

Não era mulher de ficar atrás da mesa esperando que a ocorrência chegasse pronta. Ela acompanhava diligências, participava das ações, cobrava resultados, ia atrás de suspeitos e acompanhava equipes de captura. Para ela, homem que agredia mulher não merecia tratamento especial nem desculpa social. Era criminoso. Era bandido. Era um fora da lei. E bandido, com Vilma Alves, sabia que não teria vida fácil.

Mas sua grandeza estava justamente em não transformar a função em instrumento de preconceito ou em julgamento automático.

Vilma sabia separar o joio do trigo.

Tive a oportunidade de testemunhar isso pessoalmente. Em determinado momento da minha vida, fui vítima de perseguição. Sim, perseguição. Uma mulher ligava insistentemente durante a madrugada, tirava minha paz e meu sossego e ainda procurava desqualificar a mulher com quem eu vivia. Depois de inúmeras tentativas para que aquilo parasse, sem sucesso, o caso chegou a ser objeto de reportagem em uma emissora afiliada da Rede Record no Piauí.

Não restou alternativa senão procurar a Delegacia da Mulher.

Quando relatei o caso, Vilma Alves se assustou. Afinal, não era o tipo de ocorrência que se imaginava encontrar com frequência numa delegacia especializada na proteção das mulheres. Mas sua reação demonstrou exatamente quem ela era.

Não houve ironia.

Não houve deboche.

Não houve julgamento antecipado.

Ela ouviu e foi direta: “Vamos em frente. Se ela tiver culpa, vai ter que parar com essa perseguição.”

Na acareação, Vilma Alves foi taxativa. Do seu jeito. Sem rodeios. Sem linguagem rebuscada. Sem medo de parecer politicamente incorreta.

“Olha aqui, moça, eu sou delegada da mulher. Mas, da mulher que se respeita, que se valoriza. Não da mulher que rasteja atrás de homem, que tira a paz e o sossego dele. Então, ou você para ou vai sofrer as consequências.”

E parou.

Desde aquele dia, deixei de ser importunado.

Essa era Vilma Alves.

Uma delegada que compreendia que defender a mulher não significava fechar os olhos para os fatos. Que proteger vítimas não significava abandonar o dever de investigar. Que combater a violência exigia firmeza, mas também discernimento. Num tempo em que tantas discussões acabam aprisionadas em discursos prontos, Vilma tinha uma característica cada vez mais rara: autenticidade.

Ela dizia o que pensava.

Agia de acordo com aquilo em que acreditava.

E assumia as consequências.

Mulher negra, empoderada, forte e absolutamente consciente do espaço que conquistou, Vilma Alves abriu portas quando ainda havia muitas portas fechadas para mulheres dentro das instituições policiais. Sua trajetória tem um valor histórico que precisa ser reconhecido. Ela não apenas ocupou um cargo. Ela ajudou a mudar a percepção sobre o lugar da mulher dentro da própria Segurança Pública.

Foi delegada, pioneira, corregedora-geral e referência no enfrentamento à violência contra a mulher. Mas, acima dos cargos, havia a personalidade.

Vilma não parecia carregar a vaidade do poder. Não precisava lembrar a ninguém quem era. Sua presença bastava.

E isso não significava descuido consigo mesma. Pelo contrário. Gostava de se cuidar. Gostava de estar bem apresentada. Era uma mulher vaidosa na medida certa, elegante, autêntica e dona de uma personalidade impossível de confundir com qualquer outra.

Por isso, sua morte deixa um vazio que vai além da instituição.

A Polícia Civil perde uma parte importante de sua memória.

A Segurança Pública perde uma de suas pioneiras.

E as mulheres piauienses perdem uma referência de coragem.

Num Estado onde a violência contra a mulher continua sendo uma tragédia cotidiana, a história de Vilma Alves ganha ainda mais importância. Ela pertence a uma geração que precisou enfrentar não apenas criminosos, mas também uma estrutura predominantemente masculina, onde mulheres precisavam provar, todos os dias, que eram capazes de comandar, investigar e decidir.

Vilma provou.

E provou do jeito dela.

Com coragem.

Com autoridade.

Com autenticidade.

E, quando precisava, com aquele olhar e aquelas palavras que faziam qualquer um entender que era melhor não brincar.

Hoje, o Piauí se despede da delegada.

Mas Vilma Alves não sai da história.

Porque existem servidores públicos que ocupam cargos.

E existem aqueles que constroem instituições.

Vilma Alves fez parte do segundo grupo.

Uma lady da Segurança Pública, mas sem perder a firmeza de quem sabia exatamente qual era sua missão.

Descanse em paz, delegada.

O Piauí agradece.

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