
Sábado, domingo e terça-feira. Três dias. Esse foi o intervalo necessário para que criminosos continuassem fazendo a festa no Centro comercial de Teresina. Nas Lojas Ximenes, levaram aparelhos de ar-condicionado. Na loja da Yamaha Motos, fizeram um verdadeiro “limpa”: arrancaram todas as máquinas dos equipamentos e deixaram praticamente a fiação. Na Casa Freitas, o prejuízo veio em dose dupla. Os aparelhos de ar-condicionado foram furtados duas vezes, além da fiação. E, se alguém acha que já viu de tudo, espere pelo caso da AM Farma, na Rua João Cabral. Acredite se quiser: os criminosos levaram, de uma única vez, 11 aparelhos de ar-condicionado.
Os casos foram registrados e agora entram no radar das investigações policiais. Nesta sexta-feira, uma operação conseguiu prender cinco suspeitos de participação na cadeia de furtos e receptação de condensadores e peças de ar-condicionado. A chamada Operação Cobre Frio investiga justamente esse mercado criminoso que começa no arrombamento, passa pela retirada das peças e termina na comercialização, especialmente do cobre. Segundo a investigação, havia gente para furtar, gente para receber e gente para revender. Uma verdadeira cadeia produtiva do crime, funcionando enquanto o comerciante amarga o prejuízo.
A prisão de cinco suspeitos, evidentemente, é um resultado que precisa ser registrado. Mas não resolve, por si só, o problema. O Centro de Teresina não está sendo vítima de um crime isolado. Existe uma sequência de furtos que atinge pequenos comerciantes, grandes redes varejistas e estabelecimentos de todos os tamanhos. Os criminosos agem na madrugada, mas também atacam durante o dia. E a pergunta que os comerciantes fazem é simples: onde está o policiamento permanente para impedir que o crime aconteça, em vez de aparecer apenas depois do prejuízo?
O problema vai muito além de uma operação pontual. É preciso uma política efetiva e permanente de combate aos roubos, furtos e arrombamentos no Centro comercial da capital. Porque prender depois que 11 aparelhos desapareceram é correr atrás do prejuízo. A sensação entre comerciantes é de que o criminoso perdeu o medo. E por quê? Porque muitos são presos uma, duas, três, quatro vezes, algumas vezes muito mais, e voltam às ruas para reincidir. A polícia prende, o sistema de Justiça decide sobre a manutenção ou não da prisão, e o ciclo muitas vezes recomeça. Resultado: parece que não há grades suficientes, nem nas lojas, nem no sistema prisional, capazes de impedir determinados criminosos de voltar ao velho ofício.
Elizete Conceição de Oliveira foi presa pela terceira vez por receptação durante a Operação Cobre Frio, deflagrada pela Polícia Civil na manhã desta sexta-feira (21). A ação tem como objetivo combater uma onda de arrombamentos registrada no Centro de Teresina.
E quem paga essa conta? O comerciante. Sempre ele. O pequeno empresário, que muitas vezes já luta para manter as portas abertas, é obrigado a gastar com grades, câmeras, alarmes, vigilância privada e reforço de segurança. Grandes grupos varejistas também acumulam prejuízos. Há lojista que, para tentar proteger o próprio patrimônio, passou a residir dentro do estabelecimento. Outros vão apenas passar a noite. Muitos contratam seguranças particulares. Há quem pague sistemas de vigilância com veículos circulando durante toda a madrugada. O empresário passou a fazer aquilo que deveria ser uma exceção: organizar a própria segurança porque não confia que haverá presença suficiente do poder público.
E a Guarda Municipal? E a Polícia Militar? Para muitos comerciantes, a sensação é de “ninguém sabe, ninguém viu”. O criminoso conhece os horários, observa a rotina, escolhe o alvo, arromba, desmonta, carrega e desaparece. E não estamos falando de um furto de ocasião. Para retirar condensadores, aparelhos e metros de fiação, é preciso tempo, esforço e, em muitos casos, uma operação minimamente organizada. Não é coisa que se coloca no bolso e sai andando.
Foi-se o tempo em que era possível circular tranquilamente pelo Centro de Teresina em qualquer horário. À noite, a sensação de insegurança domina ruas que deveriam estar protegidas. Becos, praças, paradas de ônibus e vias comerciais ficam vulneráveis justamente quando o policiamento ostensivo deveria ser mais visível.
E aí fica uma pergunta incômoda para quem comanda a segurança pública do Piauí: se o Estado não consegue impedir uma sequência de furtos contra estabelecimentos comerciais no coração da própria capital, como pretende garantir segurança eficiente em todos os municípios piauienses?
Segurança pública não pode ser apenas número de operação, fotografia de prisão e propaganda oficial. Segurança de verdade é aquela que o cidadão sente na rua. É o comerciante que consegue fechar a porta da loja e ir para casa sem precisar dormir no estabelecimento. É o trabalhador que espera o ônibus sem medo. É o cidadão que consegue atravessar o Centro da cidade sem a sensação de que, depois de escurecer, está entrando em território abandonado.
A Operação Cobre Frio pode ter atingido uma parte da estrutura investigada. Cinco pessoas foram presas e a Polícia Civil segue à procura de outros suspeitos. É um passo importante.
Mas o Centro de Teresina precisa de mais do que operações ocasionais.
Precisa de presença.
Precisa de patrulhamento.
Precisa de investigação permanente.
Precisa atacar quem furta, quem arromba, quem transporta e, principalmente, quem compra e alimenta esse mercado criminoso.
Porque, enquanto houver quem compre o cobre e as peças furtadas, sempre haverá alguém disposto a arrancar o ar-condicionado da próxima loja.
E o comerciante de Teresina já está cansado de pagar essa conta.
A cidade precisa de segurança de verdade.
Não apenas depois que o prejuízo já foi levado embora.
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