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Flávio Bolsonaro amplia discurso e mostra que sua candidatura quer falar com todo o Brasil

No Rio de Janeiro, candidato do PL combinou defesa dos programas sociais, endurecimento contra criminosos e anistia aos condenados do 8 de janeiro, numa estratégia que tenta ampliar o alcance do bolsonarismo sem abandonar suas principais bandeiras

22/08/2026 às 14h02
Por: Douglas Ferreira
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No RJ, Flávio defende anistia, castração química e o Bolsa Família - Foto: Reprodução
No RJ, Flávio defende anistia, castração química e o Bolsa Família - Foto: Reprodução

O discurso de Flávio Bolsonaro no lançamento da candidatura de Douglas Ruas ao Governo do Rio de Janeiro revela uma estratégia política mais ampla do que a simples repetição do velho discurso bolsonarista. Ao defender, no mesmo palco, a manutenção do Bolsa Família, o endurecimento contra criminosos e a anistia aos condenados do 8 de janeiro, o candidato do PL procura deixar claro que pretende disputar a Presidência falando com diferentes segmentos da sociedade, sem renegar as bandeiras que consolidaram sua base política.

A defesa do Bolsa Família talvez seja um dos pontos mais significativos dessa construção. Durante anos, a esquerda conseguiu transformar os programas de transferência de renda em uma espécie de patrimônio político exclusivo. Flávio tenta quebrar essa lógica. Ao afirmar que o benefício será mantido, reconhece uma realidade social incontornável: milhões de brasileiros dependem desse recurso. Mas o discurso vai além da simples manutenção do auxílio. A mensagem é que o brasileiro não deve ser condenado a depender eternamente do Estado, mas ter oportunidade de melhorar de vida.

É uma mudança importante na estratégia eleitoral. Flávio Bolsonaro parece compreender que não se conquista o eleitor de baixa renda simplesmente atacando os programas sociais dos quais ele depende. O desafio é mostrar que é possível garantir proteção para quem precisa e, ao mesmo tempo, criar condições para que o cidadão conquiste autonomia. O Bolsa Família deixa de ser tratado como tabu ou propriedade de um partido e passa a integrar uma proposta de governo que pretende disputar esse eleitorado com a esquerda.

Na segurança pública, Flávio volta ao terreno onde seu grupo político possui uma identidade muito mais definida. Ao defender a classificação do PCC, do Comando Vermelho e das milícias como organizações terroristas, o candidato tenta responder a uma sensação que está presente em boa parte da população: a de que o Estado brasileiro perdeu terreno para o crime organizado.

O discurso é duro, e propositalmente duro. A defesa de penas mais severas e de medidas como a castração química para condenados por crimes sexuais certamente provocará debate jurídico e político. Mas Flávio parece disposto a assumir esse enfrentamento. Em vez de suavizar o discurso para agradar setores que defendem uma política criminal mais branda, prefere falar diretamente ao cidadão que vive diariamente com medo da violência e que cobra uma resposta mais firme do Estado.

Há, evidentemente, limites constitucionais e jurídicos que qualquer proposta dessa natureza terá de enfrentar. Mas uma campanha presidencial também serve para colocar os grandes problemas nacionais no centro do debate. E segurança pública é, hoje, um deles. Flávio escolhe não fugir desse tema.

A defesa da anistia aos condenados do 8 de janeiro completa o tripé político do discurso. Trata-se de uma bandeira cara ao bolsonarismo e diretamente ligada à situação de Jair Bolsonaro. Ao insistir na anistia e afirmar que precisará de uma bancada forte no Senado, Flávio deixa claro que não pretende esconder sua origem política nem se afastar daqueles que formam o núcleo mais fiel de seu eleitorado.

Ao mesmo tempo, sua estratégia parece buscar algo maior: transformar a eleição presidencial em um debate sobre os limites do poder, o papel das instituições e aquilo que seus apoiadores classificam como perseguição política. Concorde-se ou não com essa leitura, é inegável que existe um contingente expressivo do eleitorado que compartilha dessa percepção e que dificilmente seria mobilizado por um candidato que abandonasse completamente essa pauta.

O discurso no Rio, portanto, revela uma tentativa de ampliar o bolsonarismo sem descaracterizá-lo.

Flávio fala ao beneficiário do Bolsa Família ao garantir a manutenção do programa. Fala ao cidadão assustado com o avanço das facções ao defender uma política mais dura contra o crime. E fala à base bolsonarista ao sustentar a anistia e defender Jair Bolsonaro.

São públicos diferentes. Mas a tentativa é construir uma mensagem comum: o Estado deve ajudar quem precisa, mas também deve ser forte contra quem ameaça a sociedade e respeitar os limites impostos pela Democracia e pela Constituição.

É cedo para saber se essa combinação será suficiente para transformar Flávio Bolsonaro em uma candidatura capaz de ampliar sua base eleitoral. Mas o discurso apresentado no Rio demonstra que a campanha não pretende ficar restrita ao eleitor bolsonarista tradicional.

A estratégia parece ser outra.

Manter a base, disputar o eleitor de baixa renda, ocupar o espaço da segurança pública e transformar temas que seus adversários prefeririam tratar com cautela em bandeiras centrais da campanha.

No fim, Flávio Bolsonaro tenta demonstrar que pode ser mais do que o herdeiro político de Jair Bolsonaro.

Quer apresentar-se como candidato com discurso próprio, capaz de manter os princípios do campo conservador e, ao mesmo tempo, falar com um Brasil que precisa de emprego, assistência social, segurança e esperança de ascensão.

E, se conseguir transformar esse discurso em conexão eleitoral, poderá se tornar um adversário muito mais competitivo do que seus críticos imaginam.

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