
Ainda repercute em todo o Brasil a visita do presidente Lula e da primeira-dama Janja à Favela do Moinho, em São Paulo, no dia 26 de junho passado. O que deveria ser um gesto simbólico de diálogo social e anúncio de políticas públicas virou um retrato explícito de como o Estado brasileiro ajoelha diante do crime organizado. A denúncia feita pelo Metrópoles e reforçada pelo Gazeta Hora1 foi clara: o presidente só conseguiu entrar na favela com a intermediação de uma associação controlada por familiares e aliados do PCC, a maior facção criminosa do país.
Eis o “x” da questão: na Favela do Moinho não é rico contra pobre, é PCC contra pobre, como bem escreveu um colunista do próprio Metrópoles, Mario Sabino. O Estado paulista tenta desmobilizar a miséria e libertar centenas de famílias do jugo do tráfico, enquanto o governo federal parece enxergar como “lideranças comunitárias” aqueles que, segundo as investigações, comandam o tráfico local, resistem à remoção para apartamentos novos e mantêm o povo como escudo humano para proteger um entreposto da droga que irriga a Cracolândia.
A nota oficial da Presidência tenta vender a narrativa de que Lula “escutou a comunidade” e que a visita “ocorreu de forma segura, com lideranças idôneas”. No entanto, a presidente da Associação da Comunidade do Moinho, Alessandra Moja Cunha, é irmã de Leonardo Moja - o “Léo do Moinho”, preso como chefe do tráfico local. A própria Alessandra é ré por homicídio e a associação é acusada de funcionar como paiol de drogas da facção.
Chama a atenção a frieza com que o governo trata a gravidade do caso. Assegura que a visita foi “pública, tranquila, transparente” e ignora o fato mais grave: quando o chefe de Estado senta à mesa com representantes da facção, ainda que disfarçados de “liderança comunitária”, ele legitima o poder paralelo que mantém os pobres na miséria e perpetua a violência. Isso não é inclusão social, é conivência social.
A triste ironia é que a tal “resistência popular” à remoção da Favela do Moinho nada mais é que a resistência da facção em perder o território estratégico para o tráfico. E, ao se alinhar a essas lideranças, o governo federal reforça a narrativa do PCC e enfraquece a ação do governo estadual, que já transferiu metade das famílias para apartamentos subsidiados e pretende transformar a área em um parque ambiental.
Fica a pergunta incômoda: até onde vai a cegueira ideológica e o populismo barato de um governo que chama bandido de líder comunitário e acha que está promovendo cidadania ao dialogar com quem escraviza a comunidade? A criminalidade agradece os holofotes, a validação, e a possibilidade de continuar ditando as regras nas franjas do Estado.
A visita de Lula à Favela do Moinho deve ser vista como o que realmente é: mais um capítulo da rendição do Estado ao poder paralelo, da inversão de valores, do populismo que confunde vítima com algoz. A comunidade merece dignidade, moradia e cidadania - mas nada disso será alcançado enquanto as políticas públicas forem mediadas por quem lucra com a desgraça alheia.
Ou o Estado retoma o controle e se impõe como garantidor da lei, ou continuará sendo cúmplice - mesmo que por omissão ou conveniência - da tirania do crime organizado sobre os mais pobres.
Confira abaixo a íntegra da nota da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, envida à redação do Gazeta Hora1.
“A agenda do Presidente da República na Favela do Moinho, em São Paulo, teve caráter institucional e público, voltado à escuta da comunidade e ao anúncio de políticas públicas em uma das regiões mais vulneráveis da cidade.
A interlocução com representantes comunitários é uma prática essencial de qualquer governo que atue com políticas públicas voltadas à inclusão, à moradia e à promoção da dignidade. Associações locais são formadas e escolhidas pelos próprios moradores e constituem pontos naturais de contato com o poder público.
Neste caso em específico, a interlocução com o presidente se deu por meio de Flavia Maria da Silva, liderança designada pela comunidade como porta-voz, com trajetória reconhecida e idônea.
A agenda do presidente consistiu em um ato na quadra poliesportiva da comunidade, uma visita à escola local, onde foi recebido por um coral de crianças, e a uma visita de cortesia à residência de Flavia da Silva.
A segurança do presidente, da primeira-dama e de toda a comitiva foi conduzida de forma rigorosa pelos órgãos competentes, conforme o protocolo adotado em qualquer agenda presidencial, não tendo sido identificado qualquer risco à integridade das autoridades presentes.
O governo federal reforça que atua com responsabilidade institucional, respeito às normas de segurança e compromisso com a promoção de políticas públicas voltadas à inclusão social e à melhoria das condições de vida da população”.
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