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Editorial CONEXÃO SUL

Brasil dos valores invertidos: quando o errado vira exemplo e o certo vira piada

O Brasil parece ter entrado de cabeça numa crise que vai além da economia ou da política

22/06/2025 às 07h25
Por: Carolina Vedovato Fonte: CAROLINA VEDOVATO
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Brasil dos valores invertidos: quando o errado vira exemplo e o certo vira piada

No país onde estudar é debochado, empreender é sinal de fracasso e o crime ganha aplausos, o senso de valor foi sequestrado. E o que resta é uma sociedade perdida entre narrativas e conveniências.

Um país que desacredita o esforço:

O Brasil parece ter entrado de cabeça numa crise que vai além da economia ou da política, é uma crise moral e de valores. Aqui, estudar virou motivo de deboche. Jovens que se dedicam, que leem, que se esforçam, são ridicularizados como “nerds”, “puxadores de saco” ou “desconectados da realidade”. Em contrapartida, quem vive de ostentação digital, exibindo uma vida artificial nas redes sociais, se torna referência, modelo e inspiração.

E não é só nas redes. A inversão se espalha. Quem tenta empreender com pouco é logo chamado de “coitado” ou “explorado”. Mas se alguém enriquece de forma duvidosa, vira “esperto”, “visionário” ou “caso de sucesso”. O mérito perdeu espaço para a narrativa. A ética perdeu lugar para o marketing.

Trapaça virou superação, até o crime passou a ser recontado com roupagem heróica. Trajetórias marcadas por fraudes, golpes ou atitudes ilícitas são empacotadas como “histórias de superação”. E qualquer tentativa de crítica é rebatida como “preconceito contra a periferia”, ou pior: “falta de empatia com o sofrimento alheio”.

Exaltar a trapaça virou sinônimo de "representatividade". Criminalidade virou "expressão cultural". E o que antes chocava, agora viraliza. O erro deixou de ser corrigido, passou a ser promovido.

Política como seita, não como solução. No debate público, os extremos sequestraram a racionalidade. Questionar o Lula automaticamente transforma alguém em “gado”. Criticar o Bolsonaro torna o cidadão um “comunista”. A terceira via, o centro, a moderação, viraram piada, acusadas de covardia ou alienação. Querer o melhor para o país sem idolatria virou pecado político.

Nesse cenário, o cidadão comum que tenta pensar por conta própria é taxado de “isentão”. E o que era para ser uma democracia plural virou uma guerra de torcidas. Ninguém mais escuta. Todos gritam.

Aplaude-se o engano, ignora-se o esforço, hoje, no Brasil, quem engana é aplaudido. Quem luta, ignora-se. O mérito real dá lugar ao atalho. A futilidade se tornou conteúdo. O que deveria chocar, entretém. O que deveria ser exemplo, virou piada.

E no meio disso tudo, valores como honestidade, humildade, trabalho, respeito e verdade são vistos como ultrapassados. Como se ser correto fosse ser ingênuo. Como se ser sério fosse ser antiquado.

Precisamos resgatar os princípios. O Brasil não precisa apenas de reformas econômicas ou políticas, precisa de uma restauração moral. De mais gente que valorize o certo, mesmo que não viralize. De vozes que defendem o bom senso, mesmo que isso não renda curtidas. De cidadãos que não se dobrem ao absurdo, mesmo que se sintam sozinhos.

Porque enquanto o errado continuar sendo vendido como normalidade, o futuro continuará comprometido. O que falta não é mais conteúdo, opinião ou exposição, falta caráter, discernimento e coragem de nadar contra a corrente.

E isso começa com cada um que se recusa a aplaudir o que está errado, mesmo quando todos já estão batendo palmas.

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