
Vivemos em um tempo estranho: nunca estivemos tão conectados, e ao mesmo tempo nunca nos sentimos tão sozinhos. No Brasil, uma pesquisa do Instituto Locomotiva revelou que 52% dos brasileiros dizem sentir solidão frequentemente. Entre os jovens, esse número sobe para 60%. E não se trata apenas de estar sozinho, mas de não ter com quem contar emocionalmente.
O resultado dessa solidão é visível em consultórios e redes sociais. A dependência emocional cresce silenciosamente: pessoas que não conseguem ficar sozinhas, abusam de redes sociais onde as mantêm sempre distraídas para evitar estar só com seus pensamentos, se anulam para manter um relacionamento, que vivem na angústia da ausência. É uma fome de afeto, não saciada por vínculos saudáveis, mas por relações frágeis e muitas vezes tóxicas, e muitas distrações.
Diante desse vazio, muitos recorrem a substitutos afetivos. Os pets são os mais comuns e, em muitos casos, verdadeiros companheiros. Mas há um fenômeno mais profundo surgindo: os bebês reborn. São bonecos hiper-realistas, tratados como filhos por adultos que enfrentam luto, ansiedade, depressão ou solidão extrema. Segundo dados de reportagens recentes, o mercado de bebês reborn movimenta mais de R$ 50 milhões por ano no Brasil. E o número de “pais” e “mães” desses bonecos só cresce.
Não estamos falando de excentricidade, mas de sintomas. Esses objetos funcionam como válvulas de escape emocionais. Servem para dar sentido ao toque, ao cuidado, ao colo que falta. Alguns veem loucura nisso. Eu vejo dor e uma sociedade despreparada para lidar com ela.
Estamos adoecendo emocionalmente, em silêncio. A tecnologia prometeu nos aproximar, mas nos tornou avatares de nós mesmos, pessoas competindo entre si, querendo sempre mostrar uma vida melhor que a outra, cada vez mais distante um dos outros e ficando inclusive mais distante de sua própria realidade. Trocamos o diálogo por emojis, a presença por stories. E nessa troca, perdemos o essencial: a profundidade das relações humanas.
Precisamos reabilitar o afeto. Ouvir mais, julgar menos. Cuidar dos vínculos, antes que eles sejam substituídos por bonecos e algoritmos. A solidão é um problema real, e enquanto tratarmos seus sintomas com ironia ou desprezo, só faremos crescer o abismo da solidão exaustiva sobre as relações humanas.
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