
Os ventos da eleição mudaram de direção entre o primeiro turno e os primeiros dias da segunda etapa. A primeira pesquisa PoderData/Aya depois da apuração mostra Flávio Bolsonaro com 53% dos votos válidos contra 47% de Lula, uma diferença de seis pontos percentuais. No primeiro turno, o candidato do PL havia terminado 1,87 ponto à frente: 47,03% contra 45,16%.
É uma fotografia, não o resultado da eleição. Mas é uma fotografia politicamente relevante. O levantamento foi realizado entre 5 e 7 de outubro, com 3 mil eleitores de 705 municípios das 27 unidades da Federação, por telefone, e tem margem de erro de 1,8 ponto percentual, com intervalo de confiança de 95%. A pesquisa está registrada no TSE sob o número BR-08134/2026.
No cenário que inclui brancos, nulos e indecisos, Flávio aparece com 49%, contra 44% de Lula. Outros 5% afirmam votar branco ou nulo e 2% ainda não sabem ou não responderam. Ou seja, existe uma parcela do eleitorado que permanece disponível para mudanças até 25 de outubro.
O que torna a pesquisa ainda mais significativa é a movimentação dos votos que pertenciam aos candidatos eliminados. Segundo levantamentos divulgados após o primeiro turno, há uma migração relevante de eleitores de nomes da chamada terceira via para Flávio, movimento acompanhado pela declaração de apoio de candidatos derrotados e por uma sequência de adesões partidárias.
Flávio já recebeu apoio de forças como União Brasil e Progressistas, Republicanos, Novo e Podemos, além de manifestações individuais de lideranças como Ronaldo Caiado e Romeu Zema. O Republicanos, que havia adotado neutralidade no primeiro turno, oficializou apoio ao candidato do PL após articulações que tiveram Tarcísio de Freitas entre os principais protagonistas.
A embarcação política de Flávio, portanto, ganhou novos tripulantes. Mas é importante não confundir vento favorável com chegada ao destino. Apoio partidário não significa transferência automática de votos, assim como declaração de uma liderança não obriga todos os seus eleitores a seguirem a mesma direção.
Ainda assim, o movimento é objetivo e merece ser considerado. O primeiro turno produziu uma vantagem pequena para Flávio. A primeira pesquisa do segundo turno registrou uma vantagem maior. E, paralelamente, o candidato do PL ampliou seu arco de alianças.
É uma sequência de acontecimentos que ajuda a explicar por que a campanha de Lula decidiu mexer profundamente em sua estrutura.
O presidente reorganizou o comando eleitoral e passou a apostar mais fortemente em lideranças nordestinas. Camilo Santana, no Ceará, assumiu a coordenação política; Rui Costa, da Bahia, ficou responsável pela coordenação da agenda; e Rafael Fonteles, do Piauí, passou a coordenar a comunicação. A estratégia é regionalizar a campanha e mobilizar uma região na qual Lula continua vencendo, mas na qual sua vantagem diminuiu em relação a 2022.
É uma aposta lógica do ponto de vista eleitoral: se o Nordeste continua sendo uma das principais bases de Lula, seus governadores e lideranças regionais têm papel importante na tentativa de preservar e ampliar essa vantagem.
Mas existe uma questão maior: o problema de Lula está somente no Nordeste?
Não.
A campanha presidencial será decidida pelo conjunto do eleitorado nacional. E é justamente aí que a estratégia lulista enfrenta seu maior desafio. Não basta aumentar a votação onde o presidente já venceu. É necessário também reduzir a diferença onde Flávio saiu à frente e conquistar eleitores que votaram nos candidatos eliminados.
É nesse ponto que o resultado do primeiro turno ganha importância.
Flávio terminou na frente em uma eleição nacional. Agora recebe o apoio de candidatos derrotados e de partidos que representam uma parcela expressiva do Congresso e dos governos estaduais. O PL também saiu fortalecido das urnas para a próxima legislatura, elegendo 121 deputados e chegando a 28 senadores em 2027.
Isso não significa que Flávio tenha a eleição ganha. A própria pesquisa PoderData/Aya mostra uma margem de movimentação: 7% dos entrevistados estão entre branco, nulo e não resposta, além de um contingente superior a 33 milhões de eleitores que não compareceu ao primeiro turno.
E segundo turno é outra eleição.
Lula sabe disso. Por isso, além de reorganizar o comando político, sua campanha começou a modificar a comunicação, ampliando vídeos em formato selfie, buscando uma linguagem mais direta e preparando caminhadas e atos públicos. O presidente deve retomar atividades de rua nesta sexta-feira, em Ceilândia, no Distrito Federal.
A disputa, portanto, entra numa fase em que os dois candidatos precisam olhar para além de suas bases tradicionais.
Flávio terá de transformar apoios políticos em votos efetivos. Lula terá de impedir que a vantagem construída no primeiro turno se amplie e, ao mesmo tempo, recuperar terreno entre eleitores que escolheram outros candidatos.
O cenário atual pode ser representado por uma imagem náutica: o barco de Flávio ganhou velocidade; Lula está tentando mudar as velas.
Mas eleição não é regata de percurso previsível. O vento pode mudar, a correnteza pode alterar o caminho e fatos novos podem modificar rapidamente o comportamento do eleitor.
Por isso, os seis pontos do PoderData/Aya devem ser lidos como aquilo que são: um retrato da disputa neste momento.
O dado politicamente mais importante, entretanto, está na combinação entre a vantagem registrada nas urnas, o crescimento da vantagem na primeira pesquisa do segundo turno e a formação de uma rede mais ampla de apoios em torno do candidato do PL.
Do outro lado, Lula responde com reorganização, regionalização e mobilização.
A partir de agora, não basta ter vento.
Será preciso saber conduzir o barco.
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