
Que a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva errou no primeiro turno, os números não deixam muita margem para discussão. O próprio presidente admitiu, em conversa com parlamentares, que aquela foi a campanha “menos organizada” de que participou desde 1989. O resultado está nas urnas: Flávio Bolsonaro terminou a primeira etapa com 47,03% dos votos, contra 45,16% de Lula, uma diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos.
Mas o erro não parece ter sido apenas de organização. Houve uma opção política e de comunicação. Em vez de transformar as realizações do governo em argumento central para conquistar o eleitor, a campanha preferiu, durante boa parte do primeiro turno, concentrar munição no principal adversário. Flávio Bolsonaro virou personagem recorrente da propaganda petista. E, em alguns episódios, acusações feitas contra ele chegaram a ser objeto de questionamentos judiciais, inclusive com representações no TSE.
A estratégia de atacar o adversário pode funcionar quando o ataque convence. Quando não convence, pode produzir o efeito inverso: transforma o adversário em protagonista e deixa em segundo plano aquilo que o candidato pretende vender. Foi exatamente isso que aconteceu? Não há como provar uma relação causal apenas pelos números. Mas é uma hipótese política perfeitamente legítima diante do resultado.
E há um dado especialmente incômodo para o PT: até o Nordeste, principal fortaleza eleitoral de Lula, encolheu.
Lula recebeu 21.494.584 votos na região, 258.555 a menos que no primeiro turno de 2022. A queda absoluta foi de aproximadamente 1,19%. Mas o dado mais significativo está na participação: Lula passou de cerca de 66,8% dos votos válidos nordestinos em 2022 para 63,77% em 2026, uma redução de quase três pontos percentuais.
É preciso fazer uma ressalva: Lula continua dominando o Nordeste. Venceu nos nove Estados e obteve 11,1 milhões de votos a mais que Flávio na região. O que mudou foi a dimensão dessa vantagem. E, enquanto Lula perdeu votos em seis dos nove Estados nordestinos, Flávio Bolsonaro cresceu em todos eles e chegou a 10,4 milhões de votos, 1,61 milhão a mais do que Jair Bolsonaro havia obtido no primeiro turno de 2022.
Ou seja: o Nordeste não virou bolsonarista. Mas também não é mais o território eleitoralmente inexpugnável que o PT talvez imaginasse.
Agora, diante da desvantagem, a campanha resolveu mudar. Lula passou a aceitar uma estratégia que seus auxiliares defendiam há meses: vídeos no formato selfie, comunicação mais direta e uma tentativa de criar uma relação mais “olho no olho” com o eleitor. Só na quarta-feira foram publicados nove vídeos nesse formato no perfil oficial do presidente.
A pergunta é: isso basta?
Gravar Lula ao lado de parlamentares jovens, militantes e aliados pode melhorar a presença digital da campanha. Mas não necessariamente melhora sua capacidade de convencer quem está fora da bolha petista.
O eleitor que precisa ser conquistado não é aquele que já segue Lula. Não é o militante. Não é o deputado que aparece ao lado dele no vídeo. Não é o eleitor que já está convencido de que o adversário é uma ameaça.
É o outro.
E é aí que começa o problema.
A campanha quer vender uma imagem mais espontânea de Lula justamente quando o eleitor já conhece, há décadas, o personagem político que está diante dele. Lula nunca foi um político de exposição espontânea permanente. Sua imagem pública é cuidadosamente construída. Eventos controlados, palanques, discursos, fotógrafos, segurança, assessores, ambientes previamente organizados.
Agora, depois de perder o primeiro turno, aparece a ideia de colocar o presidente diante do celular para conversar diariamente com o eleitor.
Pode funcionar? Pode.
Mas também pode parecer aquilo que muitas campanhas eleitorais produzem quando percebem que alguma coisa deu errado: uma espontaneidade ensaiada.
Andar pelas ruas, entrar em uma praça, conversar com trabalhadores, parar em um comércio, sentar em um banco e conversar com pessoas comuns seria uma coisa. Gravar uma caminhada previamente organizada, cercada por militantes e câmeras, é outra.
E o eleitor sabe distinguir uma coisa da outra.
Lula e sua campanha, portanto, precisam fazer alguma coisa. Não podem simplesmente assistir à banda passar enquanto Flávio consolida apoios e tenta ocupar o espaço político deixado pela vantagem do primeiro turno.
Mas existe uma linha que não pode ser ultrapassada novamente: a insistência em acusações sem comprovação ou em conteúdos que acabam desmentidos, retirados ou judicializados.
A campanha precisa abandonar a tentação de dizer hoje aquilo que terá de explicar amanhã.
André Janones, por exemplo, tornou-se uma das principais apostas da mobilização digital petista. Seu canal no WhatsApp ultrapassou 2 milhões de integrantes em poucos dias, numa tentativa de construir uma espécie de exército digital para o segundo turno.
É uma estrutura poderosa.
Mas alcance não é credibilidade.
Viralização não é convencimento.
E uma acusação repetida milhares de vezes continua sendo uma acusação. Se não houver prova, pode transformar-se em problema para quem a produz, além de alimentar uma campanha cada vez mais dependente do confronto e menos preocupada em explicar o próprio governo.
Esse talvez tenha sido um dos grandes erros do primeiro turno.
A campanha de Lula tinha quatro anos de governo para apresentar. Tinha números, obras, programas, indicadores econômicos, políticas públicas e uma narrativa própria para defender. Poderia ter colocado o governo no centro da eleição e transformado a escolha de 2026 em um plebiscito sobre sua administração.
Preferiu, muitas vezes, transformar a eleição em um plebiscito sobre Flávio Bolsonaro.
O eleitor respondeu.
E respondeu colocando Flávio na frente.
Agora não adianta chorar o leite derramado.
A campanha precisa compreender que segundo turno não é primeiro turno com mais vídeos. É outra eleição.
São apenas dois candidatos. Não há mais espaço para esconder as deficiências atrás da fragmentação do primeiro turno. Cada voto passa a ser disputado individualmente. E os mais de 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas, além dos votos dos candidatos derrotados, tornaram-se o grande campo de batalha.
Lula precisa falar com esse eleitor.
Precisa explicar o que pretende fazer.
Precisa defender aquilo que realizou.
Precisa responder às críticas.
Precisa apresentar um projeto para os próximos quatro anos.
E precisa, sobretudo, convencer sem precisar transformar cada adversário em um monstro.
Porque há uma ironia nessa mudança de estratégia: a campanha de Lula descobriu que precisa parecer mais próxima do povo justamente depois de passar boa parte da eleição falando com a própria bolha política.
Uma selfie pode aproximar.
Uma caminhada pode aproximar.
Um vídeo simples pode aproximar.
Mas nenhum celular faz milagre.
Se o conteúdo continuar falando apenas para quem já vota em Lula, a mudança será apenas estética. Se continuar baseado no medo do adversário, será apenas mais do mesmo.
E se Lula tentar, de uma hora para outra, transformar distância em intimidade, controle em espontaneidade e militância em povo, o eleitor provavelmente perceberá.
O segundo turno ainda pode ser virado. A diferença não é intransponível. Mas a campanha terá de fazer muito mais do que trocar o estúdio pelo celular.
Terá de mudar a conversa.
Porque o problema de Lula talvez nunca tenha sido falta de câmera.
Pode ter sido falta de conexão.
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