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O impacto silencioso das mortes no trânsito

Apesar de causar milhares de vítimas todos os anos, os sinistros de trânsito seguem banalizados, enquanto acidentes aéreos geram comoção e mobilizam esforços de prevenção

20/10/2024 às 10h10 Atualizada em 21/10/2024 às 22h47
Por: Wagner Albuquerque
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Acidente na ponte JK em Teresina - Foto: Reprodução
Acidente na ponte JK em Teresina - Foto: Reprodução

O número de mortes no trânsito brasileiro é alarmante. Somente no primeiro semestre de 2024, 2.908 pessoas perderam a vida nas rodovias federais em 35.166 acidentes, que resultaram em mais de 40 mil feridos, conforme dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF). Em contraste, o Brasil registrou 135 acidentes aéreos no mesmo período, que resultaram em 110 mortes, já contabilizando a recente tragédia do voo 2283 da Voepass, que caiu em agosto, vitimando 62 passageiros. Os números são da Rede de Segurança da Aviação (ASN), ligada à Flight Safety Foundation.

Para a Associação Brasileira de Medicina de Tráfego do Rio Grande do Sul (Abramet/RS), seja no transporte aéreo ou terrestre, nenhuma morte é aceitável. No entanto, as mortes no trânsito parecem ter se tornado banais, algo que acontece todos os dias sem que a sociedade dê a devida importância. Os dados preliminares do Ministério da Saúde mostram que 33.743 pessoas morreram no trânsito em 2023, número muito próximo ao de 2022, com 33.894 mortes. São 92 vidas perdidas diariamente, o equivalente à queda de um avião por dia.

Embora tragédias aéreas causem maior comoção pública, o risco de morte em acidentes de avião é significativamente menor. Um estudo do MIT aponta que, entre 2018 e 2022, a chance de morrer em um acidente aéreo foi de 1 em 13,7 milhões. No Brasil, o risco é ainda menor, de 1 em 80 milhões. A maior consternação em relação aos acidentes aéreos pode ser explicada pela sua raridade e pelo impacto emocional que causam, enquanto as mortes no trânsito, por serem rotineiras, parecem não receber o mesmo destaque.

Patrícia Sandri, presidente da Associação Brasileira de Psicologia de Tráfego (Abrapsit), acredita que os sinistros de trânsito se tornaram corriqueiros e que a sociedade perdeu a sensibilidade para essa tragédia. Ela ressalta que a maioria desses incidentes são causados por falhas humanas e poderiam ser evitados. “O trânsito mata tanto quanto um desastre aéreo, mas as vítimas parecem não ter voz”, afirma Sandri, destacando que 90% dos sinistros ocorrem por comportamentos imprudentes.

Ricardo Hegele, presidente da Abramet/RS, reforça que a banalização das mortes no trânsito é inaceitável. Para ele, a perda de vidas nas estradas deveria ser tratada com a mesma seriedade e investimento que se dá à prevenção de acidentes aéreos. Sandri acrescenta que uma pessoa morre no trânsito a cada 15 minutos no Brasil, enquanto feridos e sequelados surgem a cada dois minutos. A diferença no tratamento entre as tragédias aéreas e rodoviárias, segundo ela, está no valor dado à prevenção e no rigor com que se busca evitar novos incidentes.

A impunidade dos motoristas infratores é outra grande questão levantada por especialistas. O caso do ciclista Augusto Aurélio Leite, atropelado e morto em 2022 por um motorista em Brasília, é um exemplo dessa falta de justiça. Dois anos após sua morte, o motorista ainda não foi julgado, e a família de Augusto não recebeu qualquer indenização. Esse caso ilustra a dificuldade que muitas famílias enfrentam para obter justiça e compensação financeira em acidentes de trânsito.

Enquanto as vítimas de acidentes aéreos recebem indenizações garantidas por lei, como o seguro RETA, as famílias de vítimas de trânsito muitas vezes ficam desamparadas. A irmã de Augusto, Rosana Porto, lamenta que o processo judicial ainda esteja longe de ser resolvido e que sua mãe, já idosa, provavelmente morrerá sem ver qualquer justiça pelo filho. A sensação de impunidade é generalizada entre aqueles que perdem entes queridos no trânsito, destacando a necessidade urgente de uma reforma na legislação e de mais rigor na punição de motoristas irresponsáveis.

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