
A escolha de um ministro para o Supremo Tribunal Federal deveria exigir muito mais do que um currículo respeitável ou a confiança pessoal do presidente da República. Trata-se de uma decisão que pode produzir consequências por décadas e que, depois de tomada, dificilmente pode ser revertida.
O alerta ganha força diante das declarações do ministro aposentado Marco Aurélio Mello, que admitiu ter se arrependido de ter apoiado a indicação de Alexandre de Moraes para o STF, durante o governo Michel Temer.
Em entrevista à CNN Brasil, Marco Aurélio relembrou que, na época, considerava Moraes um nome preparado para ocupar uma cadeira na Suprema Corte. Professor universitário, integrante do Ministério Público e ex-ministro da Justiça, Moraes reunia, segundo ele, credenciais que pareciam justificar a escolha.
Anos depois, porém, a avaliação mudou.
“Se arrependimento matasse, eu não estaria aqui hoje conversando com vocês”, afirmou o ministro aposentado.
Marco Aurélio também criticou a atuação de Moraes no Supremo e declarou que o ministro “vem errando a mão”, considerando preocupantes os fatos recentemente revelados sobre sua relação com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.
O episódio voltou ao centro do debate após a divulgação de mensagens e registros de encontros entre Moraes e Vorcaro. O relatório da Polícia Federal, posteriormente tornado público, reúne 218 páginas e aponta contatos entre os dois ao longo de 2024 e 2025.
O caso reacende uma discussão maior sobre os limites do poder de ministros do STF e sobre a responsabilidade de quem participa da escolha de integrantes da Corte.
A experiência mostra que uma indicação considerada adequada no presente pode produzir resultados completamente diferentes no futuro. Quando um ministro acumula poderes institucionais e passa a tomar decisões que provocam controvérsia, a capacidade de correção do sistema torna-se uma questão central.
É justamente nesse ponto que o arrependimento de Marco Aurélio ganha peso político e institucional.
O ministro aposentado também saiu em defesa de André Mendonça, que encaminhou à Procuradoria-Geral da República informações relacionadas ao caso.
Para Marco Aurélio, houve uma “inversão de valores” na condução do episódio.
A manifestação ocorre em meio ao crescente debate dentro e fora do STF sobre os limites da atuação dos ministros, a transparência de suas relações e a necessidade de preservar a credibilidade da Suprema Corte.
O episódio envolvendo Moraes e Vorcaro ainda deverá produzir novos capítulos. E a declaração de Marco Aurélio deixa uma pergunta incômoda no ar: quando uma escolha para o STF se transforma em um arrependimento, quem possui poder suficiente para corrigir o erro?
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