
Embora o presidente Lula aparente não estar muito preocupado com a onda de dificuldades que vem atingindo empresas brasileiras, parte de sua campanha já começou a olhar com atenção para um problema que pode ganhar dimensão política: o aumento dos pedidos de recuperação judicial e extrajudicial de grandes companhias. Dois casos recentes chamam particularmente a atenção, Casas Bahia e Braskem, empresas conhecidas nacionalmente e com forte impacto sobre cadeias de trabalhadores, fornecedores, consumidores e credores.
A preocupação dos aliados do presidente não é necessariamente com a sobrevivência de cada empresa isoladamente. O temor é com o efeito político de uma sucessão de crises empresariais em plena campanha de reeleição. Afinal, uma oposição organizada certamente tentará transformar esses casos em símbolo de uma economia sufocada por juros elevados, crédito caro e dificuldades para empresas rolarem suas dívidas.
O caso das Casas Bahia é considerado especialmente delicado pelos aliados de Lula. A varejista possui uma marca popular, emprega milhares de pessoas e mantém uma relação direta com milhões de consumidores. Em 16 de agosto, a companhia entrou com pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo para renegociar uma dívida de aproximadamente R$ 17,3 bilhões, depois de enfrentar forte deterioração financeira e registrar prejuízo contábil de R$ 10,1 bilhões.
Politicamente, uma crise desse tamanho produz imagens que podem ser exploradas pela oposição: lojas, empregos, fornecedores, consumidores e uma marca tradicional brasileira tentando reorganizar as contas para evitar uma falência. É exatamente esse tipo de episódio que pode alimentar o discurso de que o ambiente econômico brasileiro se tornou hostil às empresas, especialmente àquelas que precisam de crédito e dependem do consumo das famílias.
A Braskem acrescenta uma dimensão ainda mais sensível. A petroquímica protocolou em 24 de agosto pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar uma dívida financeira estimada em cerca de R$ 56 bilhões. Diferentemente da recuperação judicial convencional, a modalidade extrajudicial busca uma negociação direta com credores, posteriormente submetida à homologação da Justiça. Não se trata, portanto, de uma decretação de falência, mas de uma tentativa de reorganizar uma companhia financeiramente pressionada.
E há uma peculiaridade política que torna o caso ainda mais relevante para o governo Lula: a Petrobras detém participação de 47% do capital votante da Braskem. Além disso, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, preside o Conselho de Administração da petroquímica. Ou seja, qualquer agravamento da situação da Braskem inevitavelmente terá reflexos sobre uma empresa estatal estratégica e, por consequência, sobre o próprio governo federal.
É justamente por isso que a campanha de Lula acompanha os dois casos com atenção. O receio é que a oposição não trate cada recuperação como um problema empresarial específico, mas como peças de uma narrativa maior: juros altos estariam sufocando a economia, encarecendo o crédito e tornando cada vez mais difícil a sobrevivência de empresas altamente endividadas.
O argumento tem apelo político porque é simples de entender. Se uma empresa não consegue rolar sua dívida, reduz investimentos, corta despesas e corre para a Justiça, o eleitor pode naturalmente perguntar qual é o papel da política econômica nesse ambiente. A resposta, contudo, exige cautela: empresas quebram ou entram em recuperação por múltiplas razões, incluindo decisões de gestão, endividamento acumulado, mudanças de mercado, concorrência, erros estratégicos e choques específicos de cada setor.
É justamente nessa disputa de narrativas que a campanha presidencial começa a se preocupar. Para Lula, quanto mais empresas de grande porte entrarem em recuperação, maior será o risco de a oposição transformar casos empresariais distintos em um diagnóstico político único: “a economia está sufocada”.
A situação das Casas Bahia é particularmente sensível por atingir diretamente o varejo e o consumidor. Já a Braskem tem peso industrial e estratégico, além da conexão acionária com a Petrobras. São dois episódios diferentes, mas que podem ser colocados sob o mesmo guarda-chuva eleitoral por quem estiver interessado em questionar a condução da economia.
A verdade é que recuperação judicial ou extrajudicial não significa automaticamente falência. Em muitos casos, é justamente o mecanismo utilizado para evitar que uma empresa desapareça. Mas quando grandes companhias começam a recorrer em sequência a esses instrumentos, o sinal de alerta fica mais forte.
E é esse sinal que já começa a incomodar a campanha presidencial.
Porque eleição não se disputa apenas com inflação, emprego e popularidade. Disputa-se também com aquilo que o eleitor vê na rua. E uma loja tradicional em crise, um trabalhador preocupado, um fornecedor sem receber e uma grande indústria renegociando dezenas de bilhões de reais podem produzir uma percepção econômica muito mais poderosa do que qualquer discurso de palanque.
Para Lula, o problema está justamente aí. A campanha pode até tentar blindar o presidente dos efeitos políticos da quebradeira empresarial. O que ela não consegue blindar é o impacto que uma sucessão de grandes recuperações pode produzir no humor do eleitorado.
E, em ano eleitoral, humor econômico é assunto sério. Muito sério.
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