
A campanha presidencial brasileira, ao longo de mais de um século, foi marcada pelo debate de ideias em jornais, revistas e emissoras de rádio. Com o advento da televisão, o palanque eletrônico ganhou uma dimensão extraordinária e, em muitos momentos, foi decisivo para uma tomada de posição do eleitor. Os debates televisivos se transformaram, especialmente nas últimas décadas, em um dos grandes divisores de águas das campanhas eleitorais depois da redemocratização do País.
Foi na televisão, afinal, que desconhecidos ganharam projeção nacional. O caso mais emblemático talvez seja o de Enéas Carneiro. O professor e médico, que durante muito tempo era praticamente um desconhecido do grande público, transformou seus poucos minutos de televisão em uma marca política. Não venceu a eleição presidencial, mas acumulou capital eleitoral suficiente para ser eleito deputado federal e ainda ajudar a eleger outros parlamentares pelo efeito da votação de legenda.
Por isso, uma regra elementar da política permanece atual: quem quer crescer em debate precisa estar no debate.
E foi exatamente isso que não aconteceu neste primeiro encontro presidencial da Band. Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema decidiram não comparecer. O resultado foi um debate com apenas três participantes, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury, enquanto três dos nomes mais conhecidos da corrida presidencial deixaram púlpitos vazios diante das câmeras.
A pergunta ficou inevitável: foi estratégia de campanha? Foi protesto contra a emissora? Foi cálculo político? Foi receio do confronto de ideias? Ou foi simplesmente uma decisão para evitar o desgaste?
Cada ausência tem uma justificativa. Lula já havia sinalizado que não participaria, e o adiamento do debate acabou não alterando sua decisão. Flávio Bolsonaro, diante da ausência do petista, também optou por não comparecer. Zema, posteriormente, alegou que, sem Lula e outros concorrentes, o novo debate havia perdido seu propósito inicial.
Tudo muito explicadinho. Mas pouco esclarecedor.
Porque, para o eleitor, o que permanece é a ausência.
E ausência em debate presidencial produz um efeito colateral que nenhuma assessoria de imprensa consegue controlar completamente: o adversário fala sozinho sobre quem não está presente.
Foi exatamente o que ocorreu. Renan Santos chamou Lula e Flávio de “covardes” e afirmou que ambos deveriam estar ali para responder pelas questões que enfrentam. Ronaldo Caiado seguiu na mesma linha e disse que a sociedade esperava a presença dos dois principais candidatos. Augusto Cury também aproveitou o primeiro momento para atacar a ausência do petista.
É aí que a estratégia começa a mostrar seu lado arriscado.
Evitar o debate pode impedir uma pancada.
Mas também entrega ao adversário um palco sem contraditório.
Lula, que lidera as pesquisas e já indicava disposição para evitar desgastes em debates, pode estar tentando preservar uma vantagem construída ao longo da campanha. É uma estratégia conhecida: quem lidera costuma ter menos interesse em entrar em arenas onde pode perder pontos em uma noite.
Mas a estratégia tem um problema.
Quem foge do confronto também abre espaço para que os outros contem sua versão da história.
E Flávio Bolsonaro entra em situação ainda mais curiosa. Se a ausência de Lula foi a razão principal para sua decisão de não participar, acabou seguindo justamente a estratégia do principal adversário. O candidato que pretende se apresentar como alternativa ao atual presidente perdeu a oportunidade de enfrentá-lo diretamente, fazer perguntas, explorar contradições e apresentar suas próprias propostas diante de milhões de espectadores.
O mesmo raciocínio vale para Zema. Ao justificar sua ausência pela falta de Lula, acabou permitindo que seu concorrente e adversários ocupassem o palco que poderia ter sido dele.
Política não gosta de espaço vazio.
Quando um candidato não ocupa o palco, alguém ocupa.
E talvez seja essa a grande lição do primeiro debate da Band.
O eleitor brasileiro gosta de futebol e gosta de política. E, em eleição presidencial, debate não é exatamente um programa de variedades. É uma espécie de duelo público. O eleitor quer ver quem responde melhor, quem perde a paciência, quem conhece os números, quem domina os problemas do País e quem consegue pensar sob pressão.
Por isso, se evitar debates e se blindar dos ataques dos adversários é uma estratégia, ela também pode produzir um efeito rebote.
Porque estratégia é estratégia. Não tem o poder de apagar passado, presente ou futuro.
Não apaga escândalos.
Não elimina perguntas.
Não substitui explicações.
E, sobretudo, não impede que o eleitor conclua que determinado candidato está evitando o confronto.
Foi justamente essa tecla que os candidatos presentes apertaram durante o debate. A ausência virou assunto principal. O que deveria ser um confronto de propostas transformou-se, em parte, em uma discussão sobre quem teve coragem de comparecer.
E existe ainda uma questão mais delicada.
A Democracia não se alimenta apenas de propaganda cuidadosamente produzida. Ela também depende de confronto, contraditório e exposição pública. Um candidato pode escolher entrevistas, podcasts, eventos e redes sociais onde controla tempo, ambiente e perguntas. Mas o debate é diferente. É imprevisível. O adversário pergunta. O eleitor observa. E ninguém consegue editar a resposta antes que ela vá ao ar.
É justamente por isso que o debate pode ser perigoso.
Mas é justamente por isso também que ele é necessário.
A eleição presidencial brasileira está apenas começando. Haverá outros debates, novas pesquisas, novas alianças e inevitáveis reviravoltas. Lula continuará tentando administrar a vantagem que possui. Flávio precisará ampliar seu eleitorado. Zema terá de encontrar espaço numa disputa cada vez mais polarizada.
Mas todos terão de responder à mesma pergunta:
Quem está fugindo de quê?
Lula avermelhou?
Flávio amarelou?
Zema apenas seguiu a boiada?
Pode ser que não. Pode ser apenas estratégia.
Mas, em política, a interpretação do eleitor também faz parte do jogo.
E quando três candidatos faltam ao mesmo debate, enquanto os demais ocupam o palco e atacam os ausentes, uma coisa é certa: o debate aconteceu. Só que, para os faltosos, aconteceu sem eles. E isso pode custar caro.
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