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Paraísos fiscais entram no radar da PF em investigação sobre grupo de Lulinha

Mensagens apreendidas pelos investigadores indicam que Roberta Luchsinger e pessoas ligadas ao grupo discutiam alternativas para manter recursos fora do Brasil, incluindo bancos suíços e uma empresa em Liechtenstein

24/08/2026 às 08h18 Atualizada em 24/08/2026 às 09h40
Por: Douglas Ferreira
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Luchsinger e Lulinha - Foto: Reprodução
Luchsinger e Lulinha - Foto: Reprodução

Toda organização criminosa, seja envolvida com tráfico de drogas, armas ou crimes de colarinho branco, enfrenta um problema depois de acumular dinheiro: como guardar, movimentar e proteger os recursos sem deixar rastros? É aí que entram empresas de fachada, contas no exterior, paraísos fiscais e estruturas financeiras capazes de dificultar o trabalho dos investigadores.

Segundo informações atribuídas à investigação da Polícia Federal e reveladas pela VEJA, esse tipo de preocupação também aparece nas mensagens atribuídas ao grupo investigado por suposto envolvimento com Lulinha e a lobista Roberta Luchsinger. As conversas mostram discussões sobre a possibilidade de manter dinheiro fora do Brasil e apontam Liechtenstein e a Suíça como destinos avaliados.

Liechtenstein é um pequeno principado europeu situado entre a Áustria e a Suíça, conhecido por seu sistema financeiro e por estruturas empresariais utilizadas internacionalmente. De acordo com a reportagem, Roberta teria prospectado instituições financeiras e orientado Gustavo Gaspar, apontado como sócio de Antônio Carlos Camilo Antunes, o chamado “Careca do INSS”, sobre a abertura de uma empresa no país.

As mensagens, segundo a investigação, também revelariam que Roberta apresentou alternativas de bancos suíços. Poucos dias depois, ela e Lulinha teriam viajado para a Europa, enquanto a lobista mencionava encontros com instituições financeiras. Para os investigadores, a sequência dos fatos merece atenção justamente porque combina prospecção financeira, criação de estrutura empresarial no exterior e deslocamentos internacionais.

Uma das mensagens analisadas pela PF teria chamado ainda mais atenção. Roberta relatou ter recebido do ex-marido, o ex-delegado Protógenes Queiroz, uma informação segundo a qual seria difícil “prender” recursos mantidos em bancos de Liechtenstein. Para os investigadores, a busca por uma estrutura naquele país poderia indicar uma tentativa de blindagem patrimonial, hipótese que ainda precisa ser comprovada no curso das investigações.

E não é apenas o dinheiro no exterior que aparece nas mensagens. Segundo a reportagem da VEJA, a Polícia Federal também encontrou referências a grandes quantias mantidas em espécie. Conversas entre Roberta e seu motorista fariam referência a valores guardados em malas, inclusive entre roupas e objetos pessoais.

Um episódio de março de 2023 teria produzido uma espécie de contabilidade informal. O motorista enviou registros indicando 500 mil de um lado e 90 mil de outro, sem especificação da moeda. Na sequência, segundo o material investigativo, Roberta teria determinado a entrega de 193 mil em espécie ao empresário Fernando Bittar, apontado pela PF como integrante do grupo investigado.

É justamente a combinação desses elementos que torna o caso particularmente sensível. Uma coisa é possuir recursos, realizar investimentos ou manter patrimônio no exterior, algo perfeitamente legal quando devidamente declarado e compatível com as normas tributárias e financeiras. Outra, completamente diferente, seria utilizar estruturas internacionais para ocultar patrimônio de origem ilícita ou dificultar sua localização pelas autoridades.

É nesse segundo cenário que a investigação procura avançar.

As mensagens fazem parte do conjunto de elementos analisados pela Polícia Federal nos inquéritos que apuram suspeitas de tráfico de influência, corrupção, organização criminosa e venda de prestígio junto ao governo federal envolvendo Lulinha, Roberta Luchsinger e outros personagens.

Por enquanto, é fundamental separar investigação de condenação. Mensagens, viagens, contas no exterior e movimentações financeiras podem constituir indícios, mas não comprovam, sozinhos, a prática dos crimes investigados. Cabe à Polícia Federal aprofundar a apuração, rastrear a origem e o destino dos recursos e demonstrar, caso exista, a conexão entre o dinheiro e eventuais negócios ilícitos.

Mas o episódio acrescenta mais uma camada a uma investigação que já envolve suspeitas de influência, contratos públicos e circulação de dinheiro. Se a PF conseguir comprovar que houve tentativa de esconder recursos ou patrimônio de origem criminosa fora do País, a dimensão do caso poderá aumentar consideravelmente.

Porque dinheiro ilícito não desaparece.

Ele muda de lugar.

Pode sair de uma mala, passar por uma empresa, atravessar uma fronteira e chegar a uma conta bancária do outro lado do mundo. O trabalho da investigação é justamente refazer esse caminho.

E, neste caso, a pergunta que fica é simples e incômoda: por que um grupo sob investigação estaria preocupado em criar estruturas financeiras em Liechtenstein e na Suíça e, ao mesmo tempo, movimentar grandes quantias em dinheiro vivo?

A resposta, agora, cabe à Polícia Federal encontrar.

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