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Polícia TRÁFICO INFLUÊNCIA

PF amplia o mapa de atuação de Lulinha e investiga negócios que chegaram aos Estados

Maranhão entrou no radar da investigação por contratos da 3Structure e por uma reunião de Carlos Brandão com o Planalto; empresas ligadas ao caso também mantêm contratos em outros governos estaduais

25/08/2026 às 08h20 Atualizada em 25/08/2026 às 08h54
Por: Douglas Ferreira Fonte: Com informações O Antagonista
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Investigação de Lulinha ganha uma nova dimensão- Foto: Reprodução
Investigação de Lulinha ganha uma nova dimensão- Foto: Reprodução

O que começou como uma investigação sobre suposta influência de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e da lobista Roberta Luchsinger sobre negócios no governo federal agora ganha uma dimensão maior. A Polícia Federal quer aprofundar a apuração sobre a atuação do grupo junto a governadores e até prefeituras, diante da suspeita de que Roberta teria usado o nome e o acesso atribuídos a Lulinha para abrir portas nos governos estaduais. A expressão “donos do Brasil” pode ser uma síntese política dessa amplitude, mas não é uma conclusão da PF. O que existe, objetivamente, é uma investigação que começa a ultrapassar as fronteiras da Esplanada dos Ministérios.

O caso do Maranhão é um dos mais relevantes. Mensagens apreendidas pela PF indicam que Roberta atuou na defesa de interesses da empresa 3Structure, de Cléber Ribas, no Estado. Em 2024, a companhia firmou contratos que somaram cerca de R$ 5,8 milhões com órgãos ligados ao governo maranhense, entre eles o Porto do Itaqui e a Secretaria de Estado da Fazenda. Segundo a reportagem baseada no material da investigação, Roberta havia sido contratada para atuar pelos interesses de Ribas e recebeu pelo menos R$ 2,5 milhões dele entre março de 2024 e dezembro de 2025.

Mas o ponto mais sensível está na política. Segundo mensagens atribuídas a Roberta, Lulinha teria ajudado a viabilizar uma reunião do governador Carlos Brandão com o então chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. A reunião ocorreu em 22 de maio de 2024, no Planalto, e a pauta teria envolvido a continuidade de obras no Maranhão. Pouco depois, o governo federal anunciou um pacote de investimentos no Estado superior a R$ 59 bilhões, dentro do Novo PAC. O governo maranhense, porém, nega influência de Lulinha ou Roberta na celebração dos convênios e Brandão afirmou que sua agenda não dependeria de terceiros.

É aqui que a investigação ganha contornos mais delicados. A PF não está simplesmente tentando descobrir se alguém conhecia alguém em Brasília. O que interessa aos investigadores é saber se a proximidade com o filho do presidente foi utilizada como instrumento de intermediação de interesses privados e se essa influência produziu alguma vantagem concreta. Uma reunião política, sozinha, não prova tráfico de influência. Um contrato público, sozinho, também não. O que precisa ser demonstrado é a conexão entre a atuação do grupo, o interesse empresarial e eventual benefício obtido em razão da influência atribuída a Lulinha.

O Maranhão, entretanto, não parece ser um episódio isolado. Dados de portais de transparência mostram que a 3Structure mantém ou manteve contratos de aproximadamente R$ 182 milhões com governos do Rio de Janeiro, Paraná e Minas Gerais. No Rio, são dezenas de contratos que somam mais de R$ 160 milhões; no Paraná, quatro contratos ultrapassam R$ 17 milhões; em Minas Gerais, há contratos de cerca de R$ 4,65 milhões. Um detalhe chama atenção: parte desses negócios foi firmada com governos politicamente distantes do Palácio do Planalto, como os de Cláudio Castro, Ratinho Junior e Romeu Zema.

Esse dado é importante porque impede uma conclusão simplista de que qualquer contrato estadual da 3Structure teria necessariamente relação com influência política exercida por Lulinha. A própria empresa afirma que os contratos foram celebrados com transparência e após processos licitatórios, e sustenta que Fábio Luís Lula da Silva não atuou como lobista nesses negócios.

A investigação, contudo, tenta responder justamente se essa separação é tão nítida quanto afirma a empresa. Segundo informações já divulgadas, a PF identificou uma relação de proximidade entre Lulinha, Roberta e Cléber Ribas e apura se houve uma espécie de comunhão de interesses econômicos entre eles. No âmbito federal, os investigadores já encontraram mensagens sobre tentativas de negócios envolvendo o Ministério da Saúde e outros órgãos.

Também há um padrão de atuação que chama a atenção. Roberta aparece como a pessoa que conversa com empresários, abre portas, marca reuniões, procura agentes públicos e, segundo a investigação, mobiliza sua proximidade com Lulinha. No Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, por exemplo, ela teria feito ao menos 16 visitas entre 2023 e 2024, algumas relacionadas a empresários e interesses contratuais. A PF também investiga reuniões com pessoas apontadas como operadores financeiros ou suspeitos de intermediar propinas.

E onde entra Lulinha nesse desenho? A hipótese investigativa não é, até aqui, a de que ele tenha assinado contratos públicos ou ocupado cargo no governo. O que a PF tenta esclarecer é se ele funcionava como uma espécie de passaporte político, emprestando o peso do sobrenome e sua proximidade com o núcleo presidencial para facilitar encontros, abrir portas e impulsionar interesses empresariais. Essa é uma hipótese investigativa, não uma conclusão judicial. A defesa de Lulinha nega irregularidades, questiona os vazamentos e afirma que ele não exerceu atividade de lobby nos contratos estaduais.

Quanto a Roberta, sua defesa também nega ilegalidades. A 3Structure sustenta que seus contratos foram obtidos dentro dos procedimentos legais e que não houve favorecimento. O governo do Maranhão igualmente rejeita a existência de influência indevida de Roberta ou Lulinha nos convênios estaduais. Essas versões são fundamentais, porque a investigação precisa demonstrar, com provas independentes, aquilo que hoje aparece como hipótese construída a partir de mensagens, contratos, encontros e movimentações financeiras.

Há ainda uma questão que merece atenção: não está demonstrado, nas informações disponíveis até agora, que o grupo tenha efetivamente controlado uma rede de negócios em estados e municípios, nem que todos os contratos da 3Structure tenham sido obtidos por influência de Lulinha. O que existe é uma investigação que identificou contratos, relações pessoais e mensagens e quer descobrir se existe uma conexão criminosa entre esses elementos. A diferença entre uma rede de contatos políticos e uma organização voltada ao tráfico de influência é justamente a prova de como esses contatos eram utilizados.

Por isso, o avanço para os Estados pode ser mais importante do que parece. Se a PF encontrar evidências de que o mesmo método usado em Brasília foi repetido nos governos estaduais, o caso muda de tamanho. Já não seria apenas uma investigação sobre tentativas de contratos no governo federal, mas sobre um possível modelo de intermediação política com alcance nacional.

Por enquanto, porém, é preciso manter os fatos nos seus devidos lugares: Maranhão está documentadamente no radar; Rio de Janeiro, Paraná e Minas Gerais aparecem ligados a contratos da 3Structure; e a PF quer esclarecer se houve uso indevido da influência atribuída a Lulinha e Roberta. Municípios também passaram a ser mencionados como possível campo de atuação, mas não há, nas informações verificadas nesta apuração, elementos suficientes para afirmar quais prefeituras teriam sido efetivamente alvo de uma ação criminosa.

A pergunta que permanece é a mais importante: Lulinha era apenas um conhecido com acesso ao poder ou usava esse acesso para abrir portas em troca de vantagens privadas? É exatamente essa fronteira que a Polícia Federal tenta estabelecer.

E, se a investigação conseguir provar que a influência política foi transformada em ferramenta comercial, o problema deixa de ser apenas familiar, partidário ou eleitoral.

Passa a ser um problema de Estado.

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