
A investigação da Polícia Federal sobre a atuação da lobista Roberta Luchsinger e sua relação com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, ganhou mais um capítulo. Os investigadores identificaram Ulisses Barbosa, apontado como operador financeiro da lobista e também seu motorista, que teria sido utilizado para realizar saques e pagamentos em dinheiro vivo. A PF informou ao Supremo Tribunal Federal que pretende aprofundar a apuração sobre a atuação do intermediário, diante da possibilidade de que a movimentação de recursos possa ter relação com lavagem de dinheiro.
O que chamou a atenção dos investigadores foram as conversas encontradas no celular de Roberta. Em uma delas, segundo a PF, a lobista determina: “Deposita 50 mil nessa conta tb”. A hipótese investigativa é que operações em espécie possam ter sido utilizadas para dificultar o rastreamento da origem e do destino dos recursos. Um dos pagamentos identificados teria sido feito a uma agência de viagens e coincidido com uma viagem realizada por Roberta e Lulinha.
A descoberta reforça elementos que já vinham sendo analisados pela PF a partir de relatórios de inteligência financeira. Segundo os investigadores, recursos movimentados por Roberta teriam sido empregados para despesas relacionadas a viagens de Lulinha. A defesa do filho do presidente contesta essa conclusão e afirma que a Polícia Federal não demonstrou que os saques tenham sido utilizados para pagar suas viagens. O advogado também diz que Lulinha não tem relação com Ulisses Barbosa.
Há ainda outro elemento que amplia o interesse da investigação. A PF suspeita que Roberta arcasse com despesas elevadas relacionadas a uma residência utilizada por Lulinha, estimadas em cerca de R$ 100 mil por mês. Em mensagem obtida pelo Estadão, a lobista teria relatado que o custo da casa tornava inviável continuar bancando determinadas despesas de viagem e que Lulinha passaria a solicitar pagamentos diretamente a empresários. A informação está sendo analisada dentro do conjunto mais amplo de indícios reunidos pela investigação.
O caso ganha peso porque as investigações envolvendo Lulinha já alcançam suspeitas de tráfico de influência e possíveis articulações junto a órgãos públicos. A PF apura, entre outros episódios, negociações envolvendo contratos no Ministério da Saúde e possíveis relações financeiras entre pessoas próximas ao filho do presidente e empresários interessados em negócios com o governo. Até o momento, essas apurações não representam condenação e as defesas negam irregularidades.
O próprio presidente Lula comentou as investigações em entrevista à Record. Disse tratar o caso com “muita seriedade”, afirmou que não interfere nas apurações e declarou que seu filho deverá responder pelos próprios atos caso seja comprovada alguma irregularidade. A manifestação veio no momento em que o caso ganhou nova repercussão com a divulgação de mensagens e detalhes financeiros atribuídos à lobista.
Agora, a questão central para os investigadores é reconstruir o caminho do dinheiro: quem sacou, quem recebeu, quem pagou e qual era a finalidade de cada operação. Dinheiro vivo não é ilegal por si só. O que pode transformar uma movimentação em indício de lavagem é a combinação entre origem incompatível, ocultação, interposição de terceiros e tentativa deliberada de dificultar o rastreamento.
Por isso, a identificação de um suposto operador financeiro não encerra a investigação. Ao contrário, abre uma nova frente. A PF terá de cruzar mensagens, registros bancários, pagamentos, viagens, patrimônio e eventuais contratos para estabelecer se havia uma estrutura organizada para movimentar recursos sem deixar rastros facilmente identificáveis.
O caso também reforça a importância de separar fatos comprovados de hipóteses investigativas. Até aqui, há suspeitas e elementos que a Polícia Federal pretende aprofundar, enquanto Lulinha e os demais envolvidos continuam tendo direito à defesa, ao contraditório e à presunção de inocência.
Mas a nova descoberta acrescenta uma pergunta incômoda ao inquérito: por que havia uma pessoa encarregada de realizar saques e pagamentos em dinheiro vivo para uma lobista que, segundo a própria investigação, mantinha relações com empresários interessados em negócios no governo?
É essa resposta, mais do que qualquer narrativa política, que a Polícia Federal agora tenta encontrar.
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