Sexta, 07 de Agosto de 2026
24°

Tempo nublado

Teresina, PI

Geral CRÔNICA 10

​A Apeiada da Doutora

-- E se apei, dona!

07/08/2026 às 00h09 Atualizada em 07/08/2026 às 00h19
Por: Arthur Feitosa Fonte: ​Por Arthur Feitosa
Compartilhe:
​A Apeiada da Doutora

A algumas décadas pretéritas, o principal meio de desopilar a alma e oxigenar o humor em Teresina, nossa linda capital planejada pelo Governador Conselheiro José Antônio Saraiva, porém sem a brisa suave, o vento fresco e o charme do litoral, era aproveitar a calmaria das coroas e bancos de areia do Rio Parnaíba ou as curvas serenas do Rio Poty para picnics e banhos na companhia de amigos. 

Entretanto, existia outro hábito reservado apenas à elite endinheirada da cidade. Tratava-se dos fins de semana prolongados em sítios e reluzentes chácaras, propriedades primorosamente cuidadas na zona rural do Estado, especialmente na região metropolitana da capital.

​Essas chácaras eram verdadeiros refúgios da alma. Muitas delas instaladas em casarões coloniais, herança do Brasil Império, eram rodeadas por varandas infinitas, adornos de madeira talhada enfeitando suas paredes e armadores de ferro espalhados por cada pilar e divisória, prontos para suportar o peso e o embalo de corpos cansados da luta pela sobrevivência, espichados em finas redes de armar. 

Ali, o tempo parecia desacelerar e perder totalmente a pressa. A única obrigação do dia era despertar com a suavidade das sinfonias de canários-da-terra e o estalar intermitente dos pássaros em suas cantigas matinais. Era ali também que o cheiro do café torrado e moído na cozinha do casarão atravessava os cômodos até encontrar o olfato de todos, para o deleite daqueles que encontravam nesses paraísos de clima ameno um refúgio abençoado.

Eram embalados pelos ventos descendentes das serras e encostas próximas, ao mesmo tempo em que se escutava o roçar folhado e ritmado das palhas de babaçu, dançando no balanço provocado pelo vento cortante e frio, muito comum nos meses da estação chuvosa do ano. Lá ao longe, ainda dentro da área do sítio, escutava-se a cantiga dos veios do ribeirão roçando as pedras que desciam na cachoeira onde Deus teimou em ampliar sua natureza incomparável.

​Foi num desses cenários paradisíacos, cravado na zona rural de José de Freitas, a um pulo da capital, que costumava descansar num casarão centenário um dos casais mais ilustres da aristocracia piauiense. Ele, um renomado médico oftalmologista e professor da faculdade de medicina da Universidade Federal do Piauí, cidadão respeitado, cortês, de gestos calmos e tranquilos, que a todos recebia com o mais original dos sorrisos de pura satisfação; ela, uma senhora completamente urbana, distinta, alegre, mas sem o traquejo próprio do linguajar do povo do interior, uma vez que era afeita mais à sua profissão de brilhante advogada, conhecida no meio jurídico de Teresina por defender causas de grande impacto nos tribunais.

​Nas sextas-feiras, ao primeiro sinal do entardecer, a propriedade começava a tomar vida. Amigos e convidados chegavam em comitiva e dali só saíam na segunda-feira pela manhã, mesmo tendo já restabelecidos o vigor físico, eram tomados por uma saudade precoce e ali já planejando o regresso o mais breve possível. A rotina consistia em se lambuzar com os bolos de caroço finalizados no forno de barro e aquecidos à lenha, se deliciar com banquetes fartos, preparados com o que de melhor saía das fazendas da região. As mesas se enchiam com o vapor perfumado do arroz soltinho no alho-poró, do feijão novo cozido com abóbora-de-leite, do leitão tenro preparado no leite do coco-babaçu e do insubstituível churrasco de bode. Para acompanhar tamanha fartura, servia-se uma excelente cachaça destilada em alambique de cobre, produzida com cana-de-açúcar da mais alta qualidade possível e teor alcoólico controlado em exatos 38 graus. O cuidado no alambique garantia um aroma aveludado e uma degustação macia, criando uma bebida de altíssimo nível que em nada devia aos rótulos mais consagrados e famosos do país.

​Num desses memoráveis fins de semana, a reunião se concentrava no alpendre principal. Todos se acomodavam em redor das grandes mesas feitas com espessas tábuas de aroeira polida, cercadas por rústicos tamboretes de madeira cujo assento era trançado em couro de bode. Havia grupos entretidos no jogo de cartas, os contadores de causos que prendiam a atenção de todos, e aqueles que preferiam ficar apenas esticados nas redes, dividindo espaço com a preguiça boa que parecia contagiar o ambiente.

​Nisso, romperam pela estrada de terra as visitas da vizinhança, costume sagrado nas tardes de sábado pelo interior. Eram moradores de sítios vizinhos que chegavam montados em possantes alazões castanhos, ostentando selas reluzentes de tão engraxadas e primorosamente decoradas, assim como os arreios e esporas brilhantes afiveladas sobre as tradicionais alpercatas de sola. Sem ainda nem esboçar o gesto de descer do animal, os visitantes cumprimentavam o dono da casa da própria montaria. O médico, fidalgo por natureza, sentado numa cadeira de balanço ali mesmo da varanda, fazia questão de receber a todos com entusiasmo, satisfação e a mais pura e genuína hospitalidade.

​Ocorre que a esposa, dona de traços aristocráticos, sorria e colocava à prova sua imensa vontade de fazer-se igual, mas, nascida em uma tradicional e refinada família pernambucana, não possuía familiaridade com o cotidiano do mato ou com o linguajar rústico da zona rural daquelas localidades. Seus costumes eram outros, refinados na convivência urbana e nos tribunais. O marido, querendo incluir a esposa na recepção e proporcionar-lhe o prazer daquela convivência tão autêntica, deu-lhe um leve incentivo para que fosse saudar os recém-chegados. Tratava-se de um vizinho de chácara que vinha acompanhado de sua esposa, ambos montando um par de cavalos extraordinariamente bem cuidados, cujo brilho do couro castanho sob o sol da tarde reluzia como se tivesse sido polido à mão.

​A distinta advogada, imbuída do mais genuíno desejo de agradar e demonstrar que estava integrada aos costumes locais, buscou no fundo da memória o vocabulário sertanejo que escutava os trabalhadores da região utilizarem. Com um sorriso elegante, deu alguns passos à frente, olhou bem para o cavaleiro e, usando toda a imponência do seu sotaque pernambucano, proferiu o convite com impecável intenção:
​— Se apeie, moço!

​Entusiasmada com o próprio sucesso e querendo estender a mesma cortesia e fidalguia à companheira do visitante, que a observava do alto de sua montaria, a advogada não teve dúvidas. Deu mais um passo, virou-se para a senhora e sapecou no mesmo tom solene o seu novo neologismo:

-- E se apei, dona!

​A mistura da solenidade aristocrática com a invenção daquele verbo totalmente inédito parou o tempo na varanda por uma fração de segundos. A gargalhada estourou de imediato e sem controle. Riu o médico, riram os amigos do baralho, riram os convidados das redes e riram até os próprios cavaleiros, que quase se desequilibraram das selas de tanto chacoalhar.

​O verbo inventado no improviso podia não constar no dicionário dos gramáticos, mas passou a integrar instantaneamente o repertório das histórias inesquíveis daquela propriedade. E assim, entre banquetes, conversas boas e a barriga doendo de tanto rir, todos dormiram mais uma vez completamente felizes.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários