
O que há em comum entre o humorista Renato Aragão, o eterno Didi Mocó, e o governador do Ceará, Elmano de Freitas? Em primeiro lugar, ambos são cearenses. Em segundo, Didi é um trapalhão da ficção, do teatro, da televisão e do cinema. Já Elmano, segundo seus críticos, parece ter decidido interpretar esse papel na vida real.
E convenhamos, é difícil encontrar uma sucessão tão grande de trapalhadas em tão pouco tempo. Não se trata de um tropeço isolado, mas de uma sequência de episódios que colocam o governo cearense permanentemente na defensiva.
Tudo começou com o caso que ficou nacionalmente conhecido como o "agronegócio da maconha". A descoberta de uma gigantesca plantação de cannabis acabou cercada por versões contraditórias, cenas confusas e uma operação policial que, para muitos, levantou mais perguntas do que respostas. Afinal, a polícia agiu para proteger a sociedade, os traficantes ou o proprietário da área? Até hoje as dúvidas persistem e o episódio virou símbolo de uma gestão que frequentemente precisa explicar aquilo que deveria ser óbvio.
Pouco depois veio outro capítulo digno de roteiro cinematográfico: o distrito de Uiraponga, em Morada Nova. Famílias haviam abandonado suas casas por causa da guerra entre facções criminosas. Então surgiu o espetáculo oficial: governador presente, policiais nas ruas, crianças brincando nas praças, moradores sentados nas calçadas, clima de paz e até festa. O problema é que, passada a encenação, a realidade voltou a se impor. A violência continuou sendo uma das maiores preocupações da população. Muitos passaram a classificar o episódio como mais uma ação de marketing político.
Agora surge uma nova controvérsia. Desta vez, envolvendo pesquisa eleitoral.
A mais recente "trapalhada" envolve um levantamento que acabou chegando à Justiça Eleitoral. A divulgação provocou forte reação de adversários políticos, que apontaram supostas irregularidades na metodologia e na forma de apresentação dos dados. O episódio reforça uma velha máxima da democracia: pesquisas eleitorais precisam seguir critérios técnicos rigorosos, transparência e fiscalização, justamente para evitar qualquer suspeita sobre sua credibilidade.
O desgaste foi inevitável. Em vez de o debate girar em torno dos números apresentados, passou a girar em torno da confiabilidade da própria pesquisa e da atuação do governo. Para uma gestão já pressionada por episódios anteriores, a polêmica acabou fortalecendo a narrativa de que a propaganda oficial tenta construir uma realidade diferente daquela percebida por parte da população. Mais uma vez, a discussão deixou de ser sobre resultados concretos para se transformar em uma disputa sobre versões.
Não por acaso, críticos afirmam que esse tipo de estratégia se repete em diferentes governos do PT. A acusação recorrente é a de que a propaganda oficial muitas vezes tenta substituir a realidade. Na Bahia, opositores classificaram como "ponte fake" uma inauguração cercada de questionamentos. No Rio Grande do Norte, a inauguração de um trecho da transposição do Rio São Francisco virou alvo de críticas depois que o canal deixou de receber água pouco tempo após a cerimônia oficial. No Piauí, adversários do governo afirmam que o Porto Piauí se transformou em um "porto cenográfico", sobretudo após um navio permanecer dias encalhado na área, alimentando o debate sobre a real capacidade operacional do empreendimento.
Para esses críticos, trata-se de um mesmo roteiro político: primeiro vêm as solenidades, os discursos, as imagens para televisão, os vídeos nas redes sociais e as manchetes otimistas. Depois, quando os holofotes se apagam, surgem os problemas, as explicações e as justificativas. É justamente essa sequência que alimenta a percepção de que, em alguns governos de esquerda, a narrativa frequentemente ocupa um espaço maior do que os resultados concretos. Se isso é coincidência ou método, cabe ao eleitor julgar.
No fundo, Elmano de Freitas apenas reproduz uma lógica política que seus adversários atribuem ao PT há décadas: quando a realidade não ajuda, investe-se pesado na narrativa. A propaganda passa a ser tão importante quanto a obra. Às vezes, mais importante do que ela.
Renato Aragão, talvez o maior embaixador cultural do Ceará, fez do personagem Didi um símbolo nacional do humor. Graças ao talento dele, o Ceará passou a ser reconhecido também como terra de humoristas extraordinários. Chico Anysio, Tom Cavalcante, Tiririca, Falcão, Adamastor Pitaco, Hiran Delmar e tantos outros transformaram o riso em patrimônio cultural do Estado.
O Ceará não precisa, porém, de um trapalhão na política.
Porque uma coisa é rir das trapalhadas no cinema ou na televisão.
Outra, completamente diferente, é quando elas acontecem dentro do Palácio da Abolição, custam caro ao contribuinte e acabam comprometendo a confiança da população nas instituições públicas. Afinal, quando a política vira espetáculo, quem quase sempre paga o ingresso é o cidadão.
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