
A história do Direito não é escrita apenas por ministros de tribunais superiores, magistrados, advogados brilhantes ou juristas que eternizaram seus nomes em livros e tratados. Em determinados momentos da vida de uma nação, o Direito também é construído por homens públicos que compreendem que nenhuma lei sobrevive sem instituições fortes e nenhuma Constituição floresce onde o diálogo é substituído pelo confronto permanente.
É nesse seleto grupo que se encontra Petrônio Portella.
Bacharel em Direito pela tradicional Faculdade Nacional de Direito da então Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro, o piauiense de Valença jamais buscou reconhecimento como doutrinador ou teórico da ciência jurídica. Sua contribuição seria muito maior. Tornou-se um dos principais artífices da reconstrução institucional brasileira em um dos períodos mais delicados da história republicana.
Deputado estadual, prefeito de Teresina, governador do Piauí, senador da República, presidente do Senado Federal e ministro da Justiça, Petrônio Portella percorreu uma trajetória política marcada pela habilidade de dialogar, ouvir e construir consensos. Essas características transformaram um político oriundo do interior do Piauí em personagem indispensável para a redemocratização do Brasil.
Na segunda metade da década de 1970, quando o País ainda vivia sob as limitações impostas pelo regime militar, Petrônio compreendeu que o Brasil precisava reencontrar o caminho da convivência institucional. O desafio não era pequeno. Era necessário aproximar posições aparentemente inconciliáveis, reduzir tensões políticas e restabelecer a confiança entre governo, oposição e sociedade.
Enquanto muitos apostavam no enfrentamento, ele escolheu o caminho da negociação. Enquanto predominavam discursos de ruptura, Petrônio acreditava na força do entendimento.
Sua capacidade de construir pontes deu origem ao que a história consagrou como a Missão Portella, um amplo processo de diálogo que aproximou representantes do governo militar, líderes da oposição, juristas, intelectuais e diferentes segmentos da sociedade brasileira.
Esse trabalho silencioso, quase sempre realizado longe dos holofotes, ajudou a preparar o ambiente político que permitiria importantes avanços institucionais, entre eles a revogação do Ato Institucional nº 5, a redução das medidas de exceção, a ampliação das liberdades políticas e a aprovação da Lei da Anistia de 1979, um dos marcos da transição democrática brasileira.
É verdade que a Lei da Anistia continua sendo objeto de intenso debate jurídico e histórico. Mas também é inegável que ela representou um passo importante no complexo processo de reconstrução das instituições democráticas.
Petrônio Portella não redigiu códigos nem formulou teorias constitucionais. Seu legado foi ainda mais profundo: ajudou a devolver protagonismo ao próprio Estado de Direito.
Sua atuação demonstrou que o Direito não vive apenas das normas escritas. Ele depende da existência de instituições sólidas, da independência entre os Poderes, do respeito às liberdades públicas e, sobretudo, da capacidade de uma sociedade resolver seus conflitos por meio do diálogo democrático.
Sua morte, em janeiro de 1980, aos 54 anos, interrompeu uma carreira que muitos acreditavam alcançar os mais altos postos da República. Ainda assim, sua contribuição já havia sido incorporada definitivamente à história política e jurídica do Brasil.
O processo que culminaria na Constituição Cidadã de 1988 encontrou terreno fértil graças, entre outros fatores, ao trabalho de homens como Petrônio Portella, que compreenderam que a democracia não nasce do acaso. Ela é construída diariamente, por meio da negociação, da tolerância e do fortalecimento permanente das instituições.
Por essa razão, sua presença na série Gigantes do Direito do Passado e do Presente possui um significado especial.
Petrônio Portella não figura entre os grandes nomes do Direito brasileiro pela produção doutrinária ou pela atuação nos tribunais. Sua grandeza reside na dimensão institucional de sua obra. Foi um operador do diálogo, um arquiteto da abertura política, um defensor da convivência democrática e um dos homens públicos que mais contribuíram para que o Brasil reencontrasse o caminho do Estado Democrático de Direito.
Seu legado permanece atual. Em tempos de polarização, sua trajetória ensina que as democracias se fortalecem quando prevalecem a serenidade, o respeito às instituições e a disposição permanente para construir pontes, nunca muros.
Essa talvez seja a maior lição deixada por Petrônio Portella: o Direito alcança sua plenitude quando serve de instrumento para a liberdade, para a justiça e para a democracia.
"Os grandes juristas escrevem leis. Os grandes magistrados escrevem sentenças. Os grandes advogados escrevem teses. Petrônio Portella escreveu uma página da história do Brasil ao construir as pontes que permitiram ao Direito voltar a respirar em liberdade. Seu legado demonstra que, às vezes, a maior contribuição ao Direito não nasce dos tribunais, mas da coragem de reconciliar uma nação".
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