
O anúncio das tarifas de 25% sobre uma série de produtos brasileiros pelos Estados Unidos não pegou ninguém de surpresa. A medida foi discutida durante meses, havia sinais claros de que poderia ser implementada e o governo brasileiro conhecia o risco que corria. Esse é um fato.
Outro fato é que as negociações mais efetivas entre Brasil e Estados Unidos só ganharam força nas semanas finais, segundo o próprio representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, que afirmou que as conversas "construtivas" ocorreram apenas nas últimas seis semanas antes da decisão.
É justamente aí que surgem os questionamentos políticos. Por que o governo brasileiro demorou tanto para agir? Houve excesso de confiança? Faltou habilidade diplomática? O presidente Lula errou ao elevar o tom contra Donald Trump em diversas oportunidades? As declarações do Itamaraty contribuíram para deteriorar ainda mais o ambiente de negociação?
Para a oposição, a resposta é mais dura. Parlamentares ligados ao PL sustentam que o governo fez "corpo mole" nas negociações e transformou o tarifaço em ativo político. A tese é de que o Planalto enxergou na crise uma oportunidade de fortalecer o discurso eleitoral e transferir a responsabilidade pelo impasse ao senador Flávio Bolsonaro, principal adversário de Lula na disputa presidencial.
O próprio Flávio Bolsonaro afirma que o governo explorou politicamente a crise comercial. Segundo o senador, o Planalto preferiu transformar o tarifaço em tema de campanha em vez de concentrar todos os esforços para impedir sua implementação. Em declarações públicas, ele acusa o governo de utilizar a sobretaxa para tentar desgastar sua candidatura e capitalizar eleitoralmente o conflito diplomático.
O governo Lula rejeita essas acusações. O Planalto sustenta que a responsabilidade pelas tarifas está ligada às decisões do governo norte-americano e também acusa Flávio Bolsonaro e aliados de atuarem politicamente junto às autoridades dos Estados Unidos, atribuindo à oposição parte da responsabilidade pelo agravamento da crise.
Independentemente da disputa de narrativas, permanece uma pergunta que dificilmente deixará de ser feita: se o risco era conhecido havia meses, por que a diplomacia brasileira não intensificou as negociações desde o início? Essa talvez seja a principal questão que continuará sendo debatida por especialistas em comércio exterior, diplomatas e analistas políticos.
Enquanto governo e oposição trocam acusações, quem tende a pagar a conta são os exportadores, os produtores rurais, a indústria e milhares de trabalhadores brasileiros. Barreiras comerciais não atingem apenas governos; elas afetam empresas, empregos, renda e competitividade.
No fim das contas, o tarifaço deixou de ser apenas um tema econômico. Tornou-se uma das principais armas da disputa eleitoral de 2026. A oposição acusa o governo de ter explorado politicamente a crise. O governo acusa a oposição de ter contribuído para sua criação. Caberá ao eleitor, diante dos fatos e das explicações apresentadas por ambos os lados, formar seu próprio julgamento sobre quem agiu para evitar o problema e quem procurou tirar proveito político dele.
QUEM PAGA A CONTA Tarifaço expõe o preço da inabilidade diplomática e desafia a capacidade de reação do governo
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