
O Governo do Piauí e o DER-PI descobriram uma fórmula moderna de engenharia: transformar manutenção em reconstrução, propaganda em jornalismo e release oficial em verdade absoluta. O resultado é uma campanha massiva tentando convencer os piauienses de que o Estado vive praticamente uma revolução suíça sobre rodas.
Segundo o discurso oficial, o Piauí recuperou cerca de 90% da sua malha viária, asfaltou os 224 municípios e entrou para a elite nacional da infraestrutura rodoviária. E tudo isso embalado por imagens cinematográficas de rodovias recém-pintadas, drones sobrevoando pistas impecáveis e matérias cuidadosamente reproduzidas em boa parte da imprensa alinhada ao Palácio de Karnak.
Aliás, não se trata apenas de publicidade institucional convencional. A estratégia funciona em duas frentes muito bem sincronizadas.
A primeira é a campanha oficial propriamente dita:
A segunda frente é mais sofisticada: releases oficiais travestidos de matérias jornalísticas. O texto sai praticamente pronto das assessorias do governo e reaparece em portais, blogs e veículos parceiros com aparência de reportagem independente. Mudam-se poucas palavras, acrescenta-se uma fala do diretor do DER, uma foto bonita de asfalto novo e pronto: nasce mais uma “matéria” celebrando a maior recuperação rodoviária da história.
Tudo muito bonito. Principalmente nas fotos.
Porque fora do enquadramento das câmeras, a realidade continua bem menos cinematográfica.
O problema começa quando os números são analisados sem o filtro da propaganda.
O DER afirma ter realizado intervenções em mais de 7,3 mil quilômetros de rodovias estaduais desde 2023. Mas o próprio órgão mistura conceitos completamente diferentes dentro da mesma conta:
Na prática, quase tudo virou “rodovia recuperada”.
É como reformar a fachada da casa, pintar o portão e anunciar que o imóvel foi reconstruído do alicerce ao teto.
E a conta fica ainda mais curiosa quando o governo fala em “90% da malha recuperada”. O Piauí possui aproximadamente 11 mil quilômetros de rodovias estaduais. Se 90% foram realmente recuperados, isso significaria algo próximo de 10 mil quilômetros plenamente restaurados.
Mas os próprios dados oficiais falam em cerca de 7,3 mil quilômetros com “algum tipo de intervenção”. E intervenção virou uma palavra elástica o suficiente para caber desde reconstrução pesada até tapa-buraco emergencial.
Ou seja: estatisticamente, o governo pavimenta até conceito técnico.
Outro detalhe pouco explorado nas peças oficiais é a durabilidade de parte dessas obras.
Diversas estradas inauguradas ou “recuperadas” recentemente não resistiram sequer ao primeiro período chuvoso mais intenso. Em vários trechos houve rompimentos de pista, erosões laterais, afundamentos de pavimento e destruição de aterros poucos meses após as inaugurações festivas com direito a placa, drone e discurso otimista.
Em algumas regiões, o asfalto novo teve vida útil menor que certas promessas eleitorais.
Trechos inteiros apresentaram problemas logo nas primeiras chuvas, levantando questionamentos inevitáveis:
O fato é que as imagens de rompimentos dificilmente recebem o mesmo investimento publicitário das inaugurações.
A câmera oficial adora o asfalto recém-pintado. Já os buracos reabertos pelas chuvas parecem sofrer misterioso apagão de cobertura.
Isso não significa negar que houve avanço. Houve.
O Piauí realmente ampliou ligações asfálticas entre municípios, implantou novas rodovias e aumentou investimentos em infraestrutura. Seria intelectualmente desonesto ignorar isso.
Mas também é desonesto vender ao Estado a ideia de que quase toda a malha viária virou referência nacional de qualidade.
Quem roda o interior sabe que a realidade ainda é marcada por:
Enquanto isso, a propaganda oficial cria um Piauí quase escandinavo sobre rodas.
A CNT realmente apontou melhora do Estado em determinados indicadores recentes. Mas ranking também precisa de interpretação técnica. Melhorar posição relativa não significa que os problemas desapareceram. Significa apenas que houve avanço comparativo dentro de um país cuja infraestrutura rodoviária historicamente também enfrenta enormes deficiências.
O que existe hoje no Piauí é uma mistura de realidade com marketing institucional em escala industrial.
O governo pega avanços reais, amplia os números através de conceitos flexíveis, espalha campanhas publicitárias agressivas e transforma releases oficiais em “reportagens espontâneas” reproduzidas quase em cadeia.
E assim vai se consolidando a narrativa de que o Estado teria praticamente resolvido seu problema histórico de infraestrutura viária.
Só que a estrada costuma ser menos generosa que a propaganda.
Principalmente depois da primeira chuva.
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