
“Sou criminalizada por ser amiga do filho do presidente Lula”. A frase da empresária Roberta Luchsinger até tenta soar como desabafo. Mas, em Brasília, ninguém é investigado apenas por amizade. Sobretudo quando essa amizade cruza o caminho de personagens envolvidos em suspeitas bilionárias contra aposentados e pensionistas do INSS.
E convenhamos: criminoso de colarinho branco não anda com faixa na testa escrita “LADRÃO”. Muito menos com tabuleta no pescoço avisando que está prestes a virar personagem central de escândalo nacional. Pelo contrário. Esse tipo de operador costuma circular em ambientes sofisticados, rodeado de empresários, políticos, influenciadores e gente importante.
Mas há um detalhe que muita gente em Brasília já comenta há tempos: o “Careca do INSS” já era o “Careca do INSS” muito antes da bomba explodir. Talvez o Brasil ainda não conhecesse a profundidade do esquema. Mas nos corredores do poder seu nome já circulava com desenvoltura.
Por isso, a narrativa de Roberta Luchsinger parece simplificar demais uma situação extremamente delicada. Dizer que está sendo atacada apenas por ser amiga de Lulinha é um discurso raso diante da dimensão das investigações.
Na prática, ela passou a ser questionada pelas conexões que mantém dentro e fora do círculo presidencial. E isso, goste-se ou não, faz parte do jogo político de Brasília. É ali que a engrenagem gira. É ali que o mecanismo processa relações, interesses, favores e aproximações. Tudo funcionando como relógio suíço. Mesmo que, metaforicamente, esse relógio tenha sido montado no Crato, no coração do Cariri cearense.
Roberta afirma que apresentou Antônio Camilo, o “Careca do INSS”, a Lulinha apenas por “boa educação”. Também garante que jamais houve intenção de negócios entre os dois.
Mas Brasília não costuma operar na base da ingenuidade. Ninguém dá passo em falso nos corredores do poder. E uma empresária experiente sabe disso melhor do que ninguém.
Além disso, fica a pergunta inevitável: como ela pode afirmar com tanta certeza que nunca houve qualquer tipo de relação comercial entre eles? E mais: em Brasília existem negócios e “negócios”. Existem transações e “transações”. Em determinados ambientes, o que não aparece oficialmente costuma valer mais do que qualquer contrato formal.
Ainda mais quando há amizades íntimas envolvidas. Daquelas das horas boas, ruins, festas, viagens e réveillons.
E é justamente aí que a história começa a ficar indigesta para muita gente.
Segundo as investigações, Roberta recebeu cinco transferências de R$ 300 mil atribuídas ao “Careca do INSS”, totalizando R$ 1,5 milhão. Paralelamente, surgem relatos de viagens internacionais luxuosas, incluindo deslocamentos para ver a aurora boreal na Finlândia.
A explicação apresentada é de que tudo teria sido acertado posteriormente entre amigos. Cada um pagando uma parte. Tudo devidamente esclarecido à polícia.
O problema é que, diante do tamanho do escândalo, a opinião pública começa a fazer perguntas desconfortáveis.
Se Lulinha é um empresário tão bem-sucedido como frequentemente afirmam seus aliados, qual exatamente é o grande grupo empresarial comandado por ele? E por que um empresário de sucesso precisaria ter viagens financiadas por terceiros ligados a um esquema suspeito dentro do INSS?
Mais do que isso: por que justamente um personagem hoje apontado como operador de um dos maiores escândalos recentes envolvendo aposentados se aproximou tanto do núcleo de amizades do filho do presidente?
São perguntas que a Polícia Federal certamente tentará responder.
No fim das contas, talvez a maior dificuldade da narrativa de Roberta Luchsinger não esteja apenas nas suspeitas em si. Mas no fato de que, em Brasília, coincidências demais costumam soar como estratégia demais.
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