
Os álbuns da Copa do Mundo sempre existiram, mas nunca foram tão interativos como agora. Nunca colecionar figurinhas dos jogadores, individuais ou em grupos, foi tão envolvente. Essa prática tem levado três gerações a se envolver, interagir e aprender juntas dentro de casa.
E aprender o quê? Paciência, expectativa, ansiedade, frustração, convivência e até educação financeira. A coisa virou febre. Febre mesmo. No sentido figurado da palavra. Uma febre que não passa com paracetamol, mas com mais um pacotinho de figurinhas.
O pequeno Victor Hugo Moreno, de 7 anos, é um exemplo dessa febre contagiante. E haja gastos. Mas um detalhe chama atenção nesta edição do álbum da Copa de 2026: o envolvimento coletivo da família. Em apenas uma semana, além do apoio dos pais na compra das figurinhas, ou “cartinhas”, como ele mesmo chama, houve contribuição das tias, da irmã Isadora Marília Morena e até de amigos da família, como Cícero Guedes, o Dudu; Diego Guilherme; Bel Lins; e José Cândido. Virou uma verdadeira força-tarefa emocional e afetiva. E, lógico, “a tia Safira" e a "vovó Natalina”.
“Eu tenho os melhores amigos do mundo”, diz Moreno.
E detalhe: a Copa do Mundo de 2026 ainda nem começou.
Cada colecionador possui suas preferências. As de Moreno são Cristiano Ronaldo, Kylian Mbappé Lottin e Vini Jr. Mas o fenômeno vai muito além do futebol. O álbum virou ponte entre gerações, aproximando pais, filhos, irmãos, vizinhos e amigos.
A febre tomou escolas, shoppings, condomínios, praças e espaços públicos. Crianças, adolescentes e adultos passaram a se reunir para trocar figurinhas, negociar repetidas e buscar raridades. E isso acabou produzindo um efeito inesperado: o retorno da socialização presencial.
Especialistas afirmam que esses encontros ajudam no desenvolvimento emocional das crianças. Ao abrir um pacote sem saber o que virá, elas aprendem a lidar com expectativa e frustração. Nas trocas, aprendem negociação, convivência e resolução de conflitos.
A psicanalista Renata Bento, da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, destaca que essa geração vive acostumada ao imediatismo das telas e da internet. Segundo ela, o álbum cria um ambiente real de conversa, aproximação e senso de comunidade.
A psicóloga Carolina Nassau Ribeiro lembra que é justamente pela socialização que crianças e adolescentes aprendem limites, regulam emoções e desenvolvem estratégias para enfrentar problemas da vida adulta.
Depois da pandemia, o isolamento social aumentou muito entre crianças e adolescentes. O excesso de telas reduziu a convivência presencial. E é justamente nesse cenário que o álbum da Copa reaparece como uma ferramenta simples, mas poderosa, de reencontro humano.
A psicóloga Priscila Martins afirma que muitos pais também ficaram menos sociáveis e acabaram transferindo isso para os filhos. O resultado é uma geração cada vez mais fechada em telas, aplicativos e redes sociais.
Por isso, os especialistas defendem que os pais incentivem encontros presenciais. Vale levar os filhos para pontos de troca, organizar mesas de figurinhas em casa, permitir reuniões entre amigos e estimular brincadeiras coletivas.
Outro ponto curioso é que o álbum deixou de ser um território predominantemente masculino. Meninas passaram a participar das rodas de troca, brincar de “bafo”, negociar figurinhas e acompanhar os jogadores. O álbum virou uma ponte de interação entre meninos e meninas.
Além da socialização, especialistas destacam outro ganho importante: educação financeira. Crianças e adolescentes começam a aprender sobre valor, negociação, planejamento e limite de gastos.
Na casa da empresária Danielly Garcia, por exemplo, os filhos Miguel, Pedro e João passaram a administrar o próprio dinheiro para comprar pacotinhos. Eles calcularam quanto poderiam gastar, quanto guardar e como negociar as figurinhas que faltavam.
O pediatra Daniel Becker avalia que experiências assim ajudam crianças a compreenderem o valor das coisas, a importância da negociação e até noções básicas de economia doméstica.
Mas talvez o mais importante seja o aspecto afetivo. Em tempos de isolamento, ansiedade e excesso de virtualização da vida, o álbum da Copa trouxe de volta algo que parecia cada vez mais raro: gente reunida, conversando, rindo, negociando e convivendo olho no olho.
O álbum pode até acabar depois da Copa. As figurinhas podem ficar guardadas numa gaveta. Mas os laços criados em volta dele têm grandes chances de permanecer por muito mais tempo.
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