
O Brasil caminha a passos rápidos, com a urgência típica de quem sabe que o tempo está esgotando, em direção ao dia 4 de outubro de 2026. No entanto, engana-se quem pensa que nessa data as urnas julgarão apenas um governo, um partido ou uma coligação ideológica. O que estará sob julgamento, na verdade, é o próprio povo brasileiro e a sua capacidade de compreender a gravidade do voto.
Historicamente, o debate político no país sofre de uma miopia crônica. O eleitor médio brasileiro desvaloriza o poder de sua escolha; vota por impulso, por simpatia superficial, por laços de dependência ou por pura apatia. Há uma alarmante falta de exame apurado sobre quem são os candidatos, quais são seus passados e o que de fato representam.
A grande tragédia da nossa democracia é que a classe política conhece perfeitamente essa falha educacional e civilizatória. Sabem que a maioria vota de forma aleatória. E utilizam essa anestesia coletiva para transformar o mandato em um cheque em branco: uma vez eleitos, sentem que nada devem àqueles que os conduziram ao poder.
A normalização do absurdo
Após décadas de corrupção sistêmica, aparelhamento das instituições, avanço do crime organizado e asfixia tributária de quem produz, ninguém mais pode alegar desconhecimento. O brasileiro conhece o país em que vive. Sente na pele o colapso dos hospitais, a decadência de escolas transformadas em palanques ideológicos e a insegurança jurídica que pune o trabalhador honesto.
O problema, portanto, mudou de patamar. Maus governantes existem em qualquer lugar do mundo. O que diferencia sociedades fortes de nações decadentes é o grau de tolerância social à degradação. E o Brasil, infelizmente, foi treinado para normalizar o absurdo. Rimos da corrupção porque perdemos a esperança de combatê-la.
Aceitamos a mediocridade sob o rótulo de "pragmatismo político". Confundimos dependência estatal com virtude ou justiça social.
Enquanto a sociedade silencia, a máquina pública cresce, os privilégios da elite política se multiplicam e o peso do Estado sufoca justamente aqueles que mantêm o país de pé. Hoje, empreender no Brasil tornou-se um ato de heroísmo e trabalhar honestamente parece uma punição.
O voto como procuração sem limites
Uma das maiores distorções da nossa democracia contemporânea reside na postura dos eleitos. Amparados pelo voto desatento do cidadão, muitos políticos passam a agir como se a vitória eleitoral lhes conferisse uma autorização irrestrita para governar acima da ética e das leis. Ignoram limites institucionais e atropelam até mesmo a vontade daqueles que deveriam representar.
Se o eleitor entrega uma verdadeira procuração política a indivíduos sem antes fazer uma auditoria rigorosa de seu caráter e de suas propostas, o resultado é o que assistimos hoje: uma república saqueada, onde o cidadão serve ao Estado, e não o contrário.
O pacto com a decadência ou a retomada da dignidade
A eleição de 2026 será um divisor de águas histórico por uma razão muito simples: o fator cumplicidade. Se, conhecendo o histórico de escândalos e asfixia econômica, a maioria do eleitorado optar novamente pela continuidade de modelos baseados no populismo, na expansão descontrolada do poder estatal e na tolerância com o erro, estará fazendo mais do que uma escolha partidária. Estará assinando um pacto consciente com o retrocesso. Depois disso, será hipocrisia lamentar a fuga de talentos, a violência ou a miséria.
Nenhuma nação se destrói apenas por causa de maus políticos. Nações se destroem quando seus cidadãos passam a considerar a mediocridade algo inevitável. Ainda existe, contudo, outro caminho. O Brasil pode romper o ciclo vicioso do fisiologismo se o eleitor decidir, finalmente, amadurecer.
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