
O lançamento da coletânea José Sarney - Obras de Ficção, na noite desta, quarta-fera, 20, ultrapassou os limites de uma simples noite literária e transformou-se num dos acontecimentos políticos, jurídicos e culturais mais emblemáticos do ano em Brasília. Aos 96 anos, o ex-presidente da República e do Senado, acadêmico da Academia Brasileira de Letras e um dos personagens mais influentes da história política brasileira, reuniu no Salão Negro do Congresso Nacional representantes dos Três Poderes da República, lideranças jurídicas, intelectuais e figuras históricas da política nacional para celebrar não apenas sua produção literária, mas sua própria trajetória pública.
O evento ganhou dimensão institucional rara. De um lado estavam os presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, e do Senado Federal, Davi Alcolumbre. Do outro, integrantes do Judiciário, desembargadores federais, ex-ministros de Estado, ex-procuradores-gerais da República e lideranças da advocacia brasileira. A cerimônia assumiu contornos de encontro entre literatura, poder e memória política nacional.
Entre os presentes estavam os desembargadores federais Carlos Augusto Brandão e Roberto Veloso, além do ex-procurador-geral da República Augusto Aras. Também compareceram o ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, o ex-ministro da Educação Cristovam Buarque e o empresário e ex-governador do Distrito Federal Paulo Octávio. A advocacia maranhense, especialmente a de Caxias, esteve representada pelo advogado Washington Torres.
A solenidade revelou o peso histórico de José Sarney no cenário nacional. Poucos homens públicos brasileiros conseguem reunir, simultaneamente, representantes do Legislativo, do Judiciário e do meio intelectual em torno de um evento literário. O encontro acabou se transformando numa espécie de reconhecimento coletivo da importância política, cultural e institucional de Sarney para a história contemporânea brasileira.
Durante o discurso, Sarney emocionou os convidados ao falar sobre sua relação com os livros. Disse que a literatura acompanha sua vida desde a infância e lamentou a ideia de que a internet possa reduzir o espaço dos livros na sociedade. A fala teve o peso simbólico de um homem que atravessou décadas ocupando posições centrais na República sem abandonar a vocação literária.
A coletânea relançada reúne três romances marcantes de sua trajetória como escritor. O Dono do Mar mergulha no universo dos pescadores maranhenses e mistura fantasia, memória e folclore brasileiro. A Duquesa Vale uma Missa possui forte diálogo com a experiência política e humana de Sarney, abordando paixão, obsessão e arte. Já Saraminda transporta o leitor para os garimpos do Amapá e da Guiana Francesa, explorando conflitos humanos em regiões marcadas pelo isolamento e pela busca de riqueza.
Ao homenagear Sarney, Hugo Motta destacou que o evento celebrava mais o escritor do que o político. Segundo o presidente da Câmara, tanto escritores quanto homens públicos precisam imaginar caminhos para o país. Já Davi Alcolumbre classificou a biografia de Sarney como uma das mais marcantes da história brasileira e afirmou que seus romances revelam profunda conexão com o Brasil e com sua identidade cultural.
Em entrevista durante o evento, Sarney explicou que os três livros escolhidos para a nova edição foram fundamentais para sua entrada na Academia Brasileira de Letras, em 1980. Autor de mais de 120 livros traduzidos para diversos idiomas, o ex-presidente afirmou desejar alcançar agora as novas gerações de leitores. Segundo ele, todo escritor deseja ser lido e a republicação das obras representa uma oportunidade para que jovens conheçam sua produção literária.
A noite no Salão Negro do Congresso terminou com clima de reverência histórica. Mais do que um relançamento editorial, o encontro consolidou-se como um raro momento de convergência entre política, literatura, Justiça e memória institucional brasileira.
Confira um trecho da fala de José Sarney:



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