
Nos últimos anos, e de forma ainda mais intensa recentemente, o noticiário passou a repetir uma expressão que até pouco tempo parecia distante do cotidiano do brasileiro: “terras raras”. O tema surgiu no Congresso, entrou nas conversas entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, movimentou gigantes da mineração e despertou o interesse direto de China e Estados Unidos pelas reservas brasileiras.
Mas afinal, o que são essas terras raras que viraram peça central da geopolítica mundial?
A primeira curiosidade já começa no nome: elas não são terras e nem exatamente raras. Trata-se de um grupo de 17 elementos químicos da tabela periódica encontrados em determinadas formações minerais. Alguns deles possuem nomes pouco conhecidos do grande público, como neodímio, praseodímio, térbio e disprósio.
O motivo da corrida global por esses elementos é simples: eles funcionam como as “vitaminas” da indústria tecnológica moderna. Em pequenas quantidades, garantem desempenho extremo para equipamentos que fazem parte da vida cotidiana e também da segurança nacional das grandes potências.
Sem terras raras, praticamente não existiriam:
- celulares modernos;
- carros elétricos;
t- urbinas eólicas;
- satélites;
- chips avançados;
- baterias de alta eficiência; sistemas militares sofisticados.
O neodímio, por exemplo, produz superímãs extremamente poderosos. Uma quantidade mínima consegue gerar força magnética muito superior à do ferro tradicional. Isso permite fabricar motores menores, mais leves e muito mais eficientes.
Na prática, as terras raras ajudaram a miniaturizar o mundo moderno.
O problema é que produzir esses elementos é extremamente complexo. Encontrar o minério não é a etapa mais difícil. O verdadeiro desafio está em separar cada elemento individualmente. Os especialistas explicam que eles se comportam como “irmãos gêmeos químicos”: aparecem juntos nas rochas e possuem propriedades quase idênticas.
Por isso, o processamento exige:
- uso massivo de ácidos;
- dezenas ou centenas de etapas industriais;
- alto consumo de água e energia;
- controle de resíduos tóxicos e radioativos;
- tecnologia sofisticada dominada por poucos países.
E é justamente aí que entra a questão geopolítica.
Hoje, a China domina cerca de 90% do processamento global de terras raras. Ou seja: mesmo países que possuem minério dependem das refinarias chinesas para transformar a matéria-prima em componentes utilizáveis pela indústria.
Os Estados Unidos enxergam isso como um problema estratégico. Em caso de conflito comercial ou diplomático, Pequim pode restringir exportações e atingir diretamente setores de defesa, tecnologia e energia.
É por isso que Washington busca desesperadamente novos parceiros. E o Brasil aparece como protagonista dessa disputa.
O país possui a segunda maior reserva de terras raras do planeta e concentra jazidas consideradas estratégicas fora da China, especialmente em regiões de Minas Gerais e Goiás.
Além disso, pesquisadores brasileiros descobriram recentemente reservas em argilas iônicas — um tipo de ocorrência mineral mais fácil e barata de explorar.
O paradoxo brasileiro é enorme.
O Brasil tem o minério, mas ainda não domina plenamente a indústria de transformação. O país consegue extrair, mas ainda depende de tecnologia estrangeira para processar em larga escala e fabricar produtos de alto valor agregado.
Na prática, existe o risco de repetir um velho modelo econômico nacional: exportar matéria-prima barata e importar tecnologia cara.
Por isso, a disputa internacional pelas terras raras vai muito além da mineração. O que está em jogo é soberania tecnológica.
A conversa entre Lula e Trump reflete exatamente isso. Os americanos querem acesso rápido aos minerais brasileiros para reduzir dependência da China. Já o governo brasileiro tenta evitar que o país vire apenas fornecedor bruto de recursos estratégicos.
O objetivo defendido por setores técnicos do governo e da indústria é transformar o Brasil em produtor de tecnologia — e não apenas de minério.
A nova corrida global pelas terras raras pode definir não apenas quem liderará a economia do futuro, mas também quais países terão independência tecnológica nas próximas décadas.
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