
Desde a minha juventude, frequento a Academia Piauiense de Letras - APL, até hoje, como sabido. Sempre fui bem acatado pelo inesquecível Professor A. Tito Filho, se bem que, em certa época, travamos passional polêmica acerca da mudança da sede governamental do Piauí, de Oeiras, donde sou natural, para a Chapada do Corisco, em 1852.
No seio familiar, tomei conhecimento de que o meu tio-avô, Benedito Francisco Nogueira Tapety (1890 - 1918), foi considerado, “post mortem”, membro efetivo desse Sodalício, primeiro ocupante da Cadeira nº 15.
O seu trespasse, aos 27 anos, ocorreu 20 dias após a fundação dessa centenária instituição, em 30.12.1917. Aliás, na data do natalício do “Emotivo Estranho”, no dizer de Lucídio Freitas, seu amigo e admirador.
Há dois anos, decerto, tive acesso a uma avariada e incompleta coletânea do Correio de Oeiras, jornal criado na terrinha pelo Coronel Orlando Carvalho, no final da primeira década do século XX.
Curiosidade: havia uma coluna interessante intitulada “Flores Oeirenses”. Uma plêiade de rapazes, utilizando-se de pseudônimos, em prosa e versos, teciam encômios à beleza física e espiritual de suas eleitas, sem declinarem seus nomes. Exaltavam a condição feminina. Não se vê coisa parecida, hoje, no universo digital, marcado pela insolência às mulheres.
Na sua edição do dia 14.02.1909, de autoria de Nogueira Tapety, extrai-se a seminal crítica literária, em solo piauiense, sobre o livro de estreia do grande Da Costa e Silva, Sangue, divulgado na capital pernambucana, em outubro de 1908. Ambos foram contemporâneos da afamada Faculdade de Direito do Recife e colegas do Tejipió, república de estudantes.
Tal achado, por nímia gentileza, passou pela criteriosa revisão do caríssimo Dr. Oton Lustosa, escritor de escol, o que me deixou feliz, pelo que lhe sou muito grato.
A apreciação de Nogueira Tapety à aludida obra é um primor, a qual está inserida, recentemente, no livro O Cânone Literário - O Sublime Piauiense, da lavra do Professor Luiz Romero Lima.
Não me conformo com o desaparecimento de uma fotografia de Da Costa e Silva, sob a ciosa guarda da minha mãe, Aldenora Nogueira Campos, acompanhada de uma filosófica dedicatória a Nogueira Tapety, plasmada em forma de improvisado soneto, acredito.
Por falta de prévia ciência dos preparativos da nova estampa de Sangue, sob os auspícios do Conselho Estadual de Cultura, lamento que o referido texto não conste do livro ora relançado. Permito-me, no momento, revelar duas informações cruciais, como se vê adiante.
De início, o Mulato Genial é enfático: “Constitui um feito raro, nesta terra de poetas, o aparecimento de um livro como esse admirável Sangue — reflexo fulgurante da idiossincrasia original e do estranhamento triste do grande poeta que o vem de publicar. Ascendendo pela escada transcendental do seu sonho, Da Costa e Silva deixou a impassibilidade característica dos parnasianos e esqueceu o romantismo piegas e choramingueiro dos que atualmente se dizem líricos, conseguindo fazer, em versos simbólicos, uma das melhores estreias que eu conheço no parnaso brasileiro. Sabe sentir superiormente, e este sentimento, purificado no cadinho da arte, aí está em sua obra, todo em versos maravilhosos — grandes demais para serem compreendidos em sua terra, onde as poesias ingênuas de Affonso Celso contam centenas de exaltados admiradores.”
Acrescenta, ainda, sobre seu perfilado: “Artista desvelado e carinhoso, ele é um verdadeiro torturado da forma — vive a sonhar com a perfeição.”
Dois anos depois, quando proferiu a monumental conferência A Luz — estudo sobre o Sol perante a religião, a ciência, a literatura - o ocaso —, no Teatro 4 de Setembro, Nogueira Tapety assim se expressou: “Da Costa e Silva — o maior atestado que podia dar o Piauí da imensa onda de sentimentos inéditos que borbulham em cada coração”.
O relançamento de Sangue, ora vivenciado, servirá de lenitivo, de transfiguração, aos seus novos leitores, assim como o foi no passado.





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