
O levantamento do instituto Real Time Big Data traz um dado direto e incômodo: 52% dos brasileiros dizem não confiar na imprensa, contra 42% que ainda confiam. A pesquisa, realizada entre 2 e 4 de maio de 2026 com dois mil entrevistados, aponta um cenário de descrédito majoritário, algo que já não é pontual, mas estrutural.
Mas os números, por si só, não contam toda a história.
Há um elemento central: a desconfiança é transversal, mas varia conforme o posicionamento político.
Entre eleitores de Flávio Bolsonaro, a descrença é mais acentuada (58%).
Entre apoiadores de Luiz Inácio Lula da Silva, também há maioria desconfiada (50%).
Ou seja, não é só um lado que rejeita a imprensa. A diferença é de intensidade, não de essência. Isso desmonta a ideia simplista de que a crítica à mídia vem apenas de um espectro político.
A resposta não é única, mas passa por alguns fatores acumulados ao longo do tempo:
1. Percepção de viés
Muitos brasileiros acreditam que veículos de comunicação não apenas informam, mas interpretam os fatos com inclinação ideológica. Quando a cobertura parece favorecer ou atacar determinados grupos de forma recorrente, a credibilidade sofre.
2. Erros e falta de autocrítica
A imprensa erra, como qualquer instituição. O problema é quando os erros não são corrigidos com transparência ou quando há resistência em admitir falhas. Isso gera a sensação de impunidade narrativa.
3. Proximidade com o poder
A relação entre mídia e governo sempre existiu, seja por acesso a informações, publicidade estatal ou interesses econômicos. Quando essa relação parece excessivamente confortável, nasce a suspeita: quem fiscaliza quem?
4. Explosão das redes sociais
Hoje, qualquer pessoa consome informação fora dos veículos tradicionais. Isso cria concorrência direta e também um efeito colateral: a imprensa perdeu o monopólio da verdade, e da narrativa.
5. Polarização política
Num ambiente polarizado, qualquer notícia desagrada metade da população. Assim, a confiança deixa de ser baseada no fato e passa a depender de quem se sente representado por ele.
Essa é uma afirmação forte, e simplista demais para explicar um fenômeno complexo.
A imprensa não é um bloco único. Existem veículos com linhas editoriais distintas, graus variados de independência e diferentes modelos de financiamento. Dizer que “a mídia se vende” ignora essa diversidade.
Mas há um ponto que sustenta a crítica: quando interesses políticos ou econômicos influenciam a cobertura, a credibilidade é afetada, e o público percebe.
Ou seja, não se trata de generalizar, mas de reconhecer que há episódios e práticas que alimentam essa percepção.
Há uma inversão perigosa acontecendo.
Se por um lado a imprensa perde confiança, por outro parte do público passa a acreditar em qualquer narrativa alternativa, sem critério ou verificação. Isso não resolve o problema, apenas troca uma possível distorção por outra ainda mais descontrolada.
O que o levantamento revela não é o fim da imprensa, mas uma crise profunda de credibilidade.
A solução não está em destruir a mídia tradicional, nem em aceitá-la cegamente. Está em exigir mais: mais transparência, mais responsabilidade, mais pluralidade.
E, principalmente, mais senso crítico de quem consome informação.
Porque, no fim, a pergunta não é apenas se a imprensa é confiável, mas se o público está disposto a separar fato de narrativa, venha de onde vier.
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