
Eu acompanhei esse episódio como quem assiste a um jogo já desconfiado do placar, mas que ainda assim se surpreende com o gol contra. Escrevi, analisei, questionei o suposto patrocínio de R$ 1,8 milhão do governo do Estado para o show de Dj Alok em Teresina. Não fui ao evento, mas vi o vídeo que viralizou. Assisti com atenção, mais de uma vez, como quem revisita uma cena tentando entender onde está o detalhe que não encaixa. E foi exatamente isso que me chamou atenção. Não foi só o discurso, foi o contraste.
Alok fala de projetos sociais no Piauí como quem apresenta um currículo que poucos conheciam. Cita ações em Parnaíba, menciona contribuições ao Lar de Maria em Teresina e ainda anuncia uma doação de R$ 1 milhão para saúde e turismo. É um discurso que encanta, que constrói imagem, que gera aplauso. Até aí, tudo dentro do esperado para um artista que também atua no campo social. Mas, no meio dessa narrativa, vem a frase que desmonta o tabuleiro inteiro. Ele afirma, com todas as letras, que não recebeu um centavo de dinheiro público no Piauí.
E aí o roteiro muda completamente. Porque até então a discussão era sobre o valor do patrocínio. Era sobre a oportunidade, sobre a prioridade, sobre gastar ou não gastar R$ 1,8 milhão em um show. De repente, a pergunta deixa de ser quanto e passa a ser se. Se houve patrocínio, por que o artista diz que não recebeu. Se não houve, por que foi anunciado. É como comprar um ingresso caro e descobrir que o show nunca foi pago.
O mais desconcertante é o contexto. A declaração foi feita diante do próprio governador, apontado como responsável pela destinação do recurso. Não foi um comentário solto, não foi uma fala fora de contexto. Foi direto, público e sem margem para interpretação. É como alguém levantar em uma mesa de jantar e dizer que a conta não foi paga, enquanto todos acreditavam que já estava quitada.
E quando essa contradição aparece, ela abre uma sequência de perguntas que não podem ser ignoradas. O governo recuou e não informou? O dinheiro foi autorizado e não executado? Foi empenhado e não pago? Ou foi pago e não chegou a quem deveria? Se saiu dos cofres públicos, qual foi o destino? Se não saiu, por que se falou tanto dele? É um quebra-cabeça com peças que não se encaixam e que, quanto mais se observa, mais estranho fica.
A situação lembra aquelas histórias em que o dinheiro some no caminho entre o remetente e o destinatário. Todo mundo jura que fez a sua parte, mas o valor simplesmente não aparece no destino final. E quando isso acontece com recursos públicos, a dúvida deixa de ser técnica e passa a ser moral. Porque não se trata apenas de contabilidade. Trata-se de confiança.
O governo precisa esclarecer com precisão cirúrgica. Não com notas genéricas, não com explicações evasivas. Precisa dizer se patrocinou ou não. Se o recurso foi autorizado, empenhado, pago e para quem foi pago. A empresa organizadora também precisa falar. Porque no fim das contas, o que não pode acontecer é um patrocínio que não patrocina. É um contrassenso tão grande quanto anunciar uma obra que nunca saiu do papel.
Alguém está contando uma história que não fecha. E quando duas versões se chocam dessa forma, não existe meio termo confortável. Ou o dinheiro existiu e não chegou, ou nunca existiu e foi usado como narrativa. Em qualquer cenário, a explicação é obrigatória. Porque silêncio, nesse caso, não é prudência. É combustível para desconfiança.
A fala de Alok logo ganhou a mídia local e regional. O sistema Meio Norte publicou o vídeo:
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