
O cenário começa a ganhar contornos de maré virando, ainda que aos poucos e com todas as ressalvas que uma eleição presidencial exige. Pesquisa é retrato, é fotografia de momento, mas quando a sequência de retratos começa a formar um filme, convém prestar atenção no enredo. E o enredo que se desenha coloca o senador Flávio Bolsonaro em trajetória de crescimento consistente desde o início do ano, enquanto o presidente Lula enfrenta um desgaste que já não dá mais para tratar como oscilação pontual.
No Rio Grande do Sul, o primeiro sinal mais evidente dessa mudança apareceu como aquele vento frio que antecede a tempestade. Flávio surgiu à frente de Lula, indicando que até em um estado com histórico de disputas equilibradas o pêndulo pode estar mudando de lado. Em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, o roteiro se repete com nuances ainda mais preocupantes para o Palácio do Planalto. Flávio lidera tanto no primeiro quanto no segundo turno, como um corredor que não apenas ultrapassa, mas começa a abrir vantagem na reta final.
No Rio de Janeiro, terra onde a política costuma ser barulhenta como arquibancada de final de campeonato, os números reforçam essa tendência. Flávio aparece com 39,6% contra 36,7% de Lula no primeiro turno. No segundo turno, a diferença se amplia para 47% a 40,5%. Não é uma goleada, mas também não é empate técnico confortável. É aquele placar que faz o time adversário olhar para o relógio com preocupação.
E tudo isso acontece em um ambiente onde a rejeição ao governo Lula segue alta. No Rio, por exemplo, passa dos 55%. É como tentar correr com peso nas costas. Até há esforço, mas o desempenho nunca é o mesmo. A aprovação até reagiu levemente, mas a avaliação negativa ainda domina o cenário, como uma nuvem que insiste em não sair do céu.
Enquanto isso, Flávio Bolsonaro cresce como quem ocupa espaço deixado pelo desgaste alheio. Sua pré-candidatura vai deixando de ser apenas uma hipótese e começa a ganhar corpo, musculatura e, principalmente, viabilidade política. Não é mais um nome testado por curiosidade. É um nome que passa a ser considerado com seriedade por uma parcela crescente do eleitorado.
No Nordeste, tradicional reduto petista, os sinais também começam a acender alertas. Não se trata de uma virada consolidada, mas de um desgaste que já não pode ser ignorado. É como um reservatório que sempre esteve cheio e começa, aos poucos, a baixar o nível. Ainda há água, mas a tendência preocupa.
Claro, eleições não se vencem em abril. Muita coisa pode acontecer até a urna. Mas ignorar uma tendência é como ignorar rachaduras em uma barragem. Pode não dar em nada. Ou pode ser o começo de algo maior.
Flávio cresce. Lula oscila para baixo. E quando essas duas linhas se cruzam no gráfico, a política deixa de ser apenas discurso e passa a ser matemática eleitoral.
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