
Os opioides, potentes analgésicos prescritos para tratar dores intensas, estão no centro de uma controvérsia global. Essas substâncias, que incluem a oxicodona e a fentanila, têm sido associadas a um risco crescente de dependência e overdose, especialmente nos Estados Unidos, onde já resultaram na morte de mais de meio milhão de pessoas. Uma nova investigação revela que essa crise pode estar se expandindo para o Brasil, com práticas questionáveis adotadas por farmacêuticas como a Mundipharma.
E como até mesmo água em excesso pode matar a planta, no caso dos opioides todo cuidado é pouco. Os opioides são uma classe de substâncias que atuam no sistema nervoso central e são usadas para aliviar a dor, mas também podem causar dependência e vício:
O que são os opioides e por que são tão perigosos?
Os opioides são medicamentos usados principalmente para alívio da dor, muitas vezes prescritos para pacientes com câncer, dores crônicas ou pós-operatórias. Embora eficazes no controle da dor, eles possuem um elevado risco de dependência devido ao efeito que produzem no sistema nervoso, provocando sensações de euforia e conforto.
Origem - Derivados da papoula do oriente, os opioides são extraídos da semente da papoula (Papaver somniferum). A papula é a planta que fornece o princípio ativo do ópio, daí a variação do nome opioide.
Efeitos - Os opioides são analgésicos e sedativos potentes que provocam uma sensação exagerada de bem-estar.
Essa "droga legal" se torna perigosa quando, mesmo sob prescrição médica, os pacientes desenvolvem uma tolerância, exigindo doses cada vez maiores para obter o mesmo alívio. Além disso, a interrupção repentina do uso pode gerar sintomas de abstinência severos, complicando ainda mais o quadro de dependência.
O que está por trás da crise nos EUA?
Nos Estados Unidos, farmacêuticas como a Purdue Pharma, responsável pelo OxyContin, foram culpadas por promover opioides como "seguros e não viciantes", o que levou à prescrição desenfreada desses medicamentos. Ao longo das décadas de 1990 e 2000, o marketing agressivo e a falta de informações claras sobre os riscos do uso prolongado resultaram em uma epidemia devastadora de overdose. Somente entre 1999 e 2019, cerca de 500 mil americanos morreram devido ao uso excessivo de opioides.
A investigação também apontou que táticas semelhantes estão sendo usadas no Brasil, com a Mundipharma promovendo seus produtos a médicos em eventos privados, muitas vezes sem destacar de forma clara os perigos associados ao uso prolongado dessas substâncias.
O Brasil corre risco de uma crise semelhante?
Desde 2013, a Mundipharma tem intensificado suas atividades no Brasil, promovendo opioides como OxyContin, Restiva e Targin. Em eventos patrocinados pela farmacêutica, médicos são instruídos sobre a prescrição dessas substâncias, criando um ambiente onde o uso desses medicamentos pode ser amplamente difundido.
Especialistas alertam que, embora o Brasil ainda não tenha enfrentado uma crise semelhante à dos EUA, o uso crescente de opioides é preocupante. O risco de dependência está presente, e o controle sobre a prescrição desses medicamentos nem sempre é rigoroso. Dados da Anvisa mostram um aumento na comercialização de opioides no Brasil nos últimos anos, um sinal de alerta para os profissionais de saúde.
A face oculta das farmacêuticas
A Mundipharma, que tem laços diretos com a Purdue Pharma, empresa dos irmãos Sackler — responsáveis pela crise de opioides nos EUA —, repete aqui práticas semelhantes. A promessa de que seus produtos são "seguros" e a ênfase em que o uso controlado de substâncias como oxicodona é livre de riscos têm sido alvo de críticas. Médicos e especialistas afirmam que os opioides continuam sendo substâncias altamente viciantes, mesmo na forma de liberação controlada, como é o caso do Targin.
O modelo de negócio que favoreceu a explosão da crise nos EUA agora se repete no Brasil. Contratar médicos para promover o uso de opioides entre seus colegas é uma estratégia antiga, mas eficaz, para impulsionar as vendas, ao mesmo tempo em que minimiza os perigos.
Conclusão
Com o uso de opioides crescendo no Brasil, a sombra da crise nos Estados Unidos paira sobre o país. A falta de regulamentação mais rígida e a influência das farmacêuticas podem criar um cenário propício para uma crise de saúde pública, caso medidas não sejam tomadas para conscientizar médicos e pacientes sobre os riscos. A história de tragédias e perdas por opioides nos Estados Unidos não pode se repetir aqui. O Brasil ainda tem tempo de evitar uma catástrofe semelhante.
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