
O show de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl de 2026 não foi apenas uma apresentação musical. Foi um gesto simbólico, político e cultural transmitido para centenas de milhões de pessoas em todo o mundo. Em um dos palcos mais tradicionais do entretenimento norte-americano, o artista porto-riquenho transformou o espetáculo em uma declaração sobre identidade, democracia e pertencimento continental.
Ao se tornar o primeiro artista latino a liderar sozinho o halftime show, cantando majoritariamente em espanhol, Bad Bunny não apenas quebrou um recorde. Ele deslocou o eixo simbólico do evento. Durante décadas, o Super Bowl foi apresentado como um símbolo do poder cultural dos Estados Unidos. Naquela noite, porém, a mensagem foi outra: a América não é um país, é um continente.
O momento mais emblemático veio no final da apresentação, quando o cantor citou, um a um, países da América Latina e do Caribe, enquanto dançarinos carregavam bandeiras de diferentes nações. A frase “Together, we are America” apareceu no estádio, resumindo a ideia central do espetáculo: a América é plural, diversa e coletiva.
Essa mensagem ganhou ainda mais peso no contexto político atual, marcado por tensões migratórias, discursos nacionalistas e questionamentos a valores democráticos em várias partes do mundo. O show trouxe referências à violência contra imigrantes, às dificuldades enfrentadas por comunidades latinas e a temas sociais ligados à história de Porto Rico.
Mas a apresentação também foi construída como uma celebração cultural. O palco recriou cenários da vida cotidiana porto-riquenha — de campos de cana-de-açúcar a praças e festas populares — transformando o estádio em um retrato vivo da ilha e de sua cultura.

O elenco de convidados reforçou essa ideia de união cultural. Participaram musicalmente Lady Gaga e Ricky Martin, enquanto outras celebridades e artistas latinos apareceram em diferentes momentos da apresentação, entre eles Cardi B, Karol G, Young Miko, Pedro Pascal e Jessica Alba. Mais do que participações pontuais, essas presenças criaram uma sensação de comunidade no palco, como se o show fosse uma grande festa latino-americana transmitida para o planeta.
O momento mais inesperado — e talvez o mais simbólico — foi um casamento real realizado durante a apresentação. O casal havia convidado o cantor para sua cerimônia, e ele inverteu o gesto: levou os noivos para o palco do Super Bowl e assinou a certidão como testemunha, transformando o evento em uma celebração de amor diante de milhões de espectadores. A cena, celebrada ao lado de artistas e dançarinos, reforçou o tom humano e comunitário do espetáculo, contrastando com o clima de polarização política que marcou os debates antes e depois da apresentação.
A repercussão foi imediata e intensa. Enquanto muitos artistas e críticos elogiaram o caráter histórico e cultural do show, setores conservadores reagiram com críticas. O presidente Donald Trump classificou a apresentação como “terrível” e questionou o fato de o espetáculo ter sido majoritariamente em espanhol, ampliando a dimensão política do evento.
A reação presidencial acabou reforçando a leitura de que o show havia ultrapassado o campo do entretenimento. O halftime show se transformou em um episódio simbólico de disputa cultural: de um lado, a visão de uma América plural, latina e diversa; de outro, uma concepção mais restrita e nacionalista da identidade americana.
O próprio encerramento da apresentação deixou clara a intenção do artista. Nos telões do estádio, surgiu a frase: “The only thing more powerful than hate is love” — “A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”. Era a síntese do espetáculo e de seu recado político: diante da intolerância, da violência contra imigrantes e da polarização, a resposta proposta pelo show foi a convivência, a diversidade e a união entre os povos.
Nesse sentido, o espetáculo de Bad Bunny dialoga com outros momentos históricos do Super Bowl, mas com uma linguagem própria. Se apresentações como as de Michael Jackson, Prince ou Beyoncé entraram para a história pela grandiosidade artística, o show de 2026 tem potencial para ser lembrado como o momento em que o palco mais americano do planeta se transformou, por alguns minutos, em um palco continental.
Mais do que um show, foi um manifesto cultural. Um lembrete de que a democracia se fortalece na diversidade e de que a América, antes de ser um país, é uma ideia compartilhada por todo um continente.
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